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Leituras Improváveis

um registo digital

Leituras Improváveis

um registo digital

14.11.25

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Na época do capitalismo artístico avançado, os indivíduos, incluindo os que fazem parte das classes mais altas, consomem regularmente e em altas doses bens culturais que eles consideram regressivos e angustiantes. Agora, o que mais vemos não é sempre o que nos inspira respeito. A explicação do fenómeno é dada pelos próprios consumidores que, sobre estes programas declaram escolhê-los para descomprimir, relaxar depois de um dia de trabalho "stressante" e extenuante. O divertimento, a descontração, o descanso tornaram-se nas grandes molas de consumo cultural; o sucesso das comédias, na forma ecumenicamente mais popular, mostra-o bem. A cultura clássica tinha a ambição de formar, educar, elevar o homem: agora pedimos à cultura exactamente o contrário, que nos "esvazie a cabeça".

 

excerto de O capitalismo estético na era da globalização, de Gilles Lipovetsky (Edições 70)

07.10.25

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- Acha que as pessoas têm razão em sentirem ameaçadas? – perguntei eu.

- Essa é pergunta errada – disse Patelski. – Faz tanto sentido como perguntar se as pessoas têm razão em se sentirem ameaçadas pela água. A água vem. Do mar, das montanhas ou do céu. A água é impossível de conter. Se deixarmos a água correr livremente, o desastre é potencial, mas se a conseguirmos canalizar e a deixarmos fluir controladamente nos nossos campos, ela é uma fonte de vida e riqueza. A migração é igualmente impossível de conter. Quem pensa assim não conhece a história da humanidade. Desde que nos conseguimos pôr em cima de duas pernas, começamos a andar. A partir do nosso berço em África, povoamos os continentes. A migração é a essência do ser humano. Quem pensa poder parar a migração actual vinda de África não conhece o desespero dos emigrantes. Quem está disposto a arriscar a vida não se deixa deter por nada. Sendo assim, perguntar se isso forma uma ameaça é improdutivo. Portanto, se os imigrantes continuam a vir, é mais proveitoso começar a pensar o mais rapidamente possível sobre a questão de como canalizar essas correntes e utilizá-las de uma maneira que seja para nossa vantagem. Se nós, por pânico ou por inadequado sentimento de superioridade, nos recusamos a empregar inteligentemente os afluxos de imigrantes a favor da nossa sociedade, seremos invadidos de uma maneira que representa um desastre potencial. Se realmente o fizermos, o problema da migração torna-se uma solução. A Europa está a envelhecer. Todas as manhãs vejo a prova mais convincente disso ao espelho. Com o nosso actual perfil demográfico, é impossível manter a nossa saúde e as pensões ao mesmo nível. Sem a migração, é difícil imaginar um futuro para a Europa.

- Isso não leva à destruição da nossa cultura?

- Cada cultura é um cocktail – disse Patelski. – E a composição da mistura está continuamente sujeita a mudanças. Isso caracteriza uma cultura viva. Quem quer ver uma cultura que se petrificou numa imobilidade estática e princípios cinzelados em mármore pode visitar os templos gregos e romanos. O que actualmente sobrevive dessas culturas extintas é precisamente aquilo que se deixou diluir, contaminar e corromper por dois milénios de influências estranhas. O presente medo da islamização de Europa é idêntico ao de um patrício romano no séc. IV pela cristianização do império. Eu também poderia citar Horácio: “A Grécia subjugada subjugou o seu feroz conquistador”. Entendo o que quer dizer. O confronto entre duas culturas não leva à substituição de uma por outra, mas a uma nova cultura, em que ambas, magicamente, podem ser declaradas vencedoras. Até mesmo os conquistadores espanhóis, armados até aos dentes, não conseguiram destruir totalmente, apesar de tentativas furiosas, a cultura original dos habitantes da América do Sul. Ela volta alguns séculos mais tarde na sua língua, nos livros de Garcia Marquez, para contagiar a sua própria cultura e mudar o seu modo de pensar. Se a Europa for islamizada o Islão lá há-de mudar tanto como a Europa. Mais de perguntar se isto pode ser travado, muito provavelmente pode ser visto a nível mundial como um progresso.

- Esta opinião poderia ser escarnecida por muitos como uma forma extrema de relativismo cultural – notei.

- Chame-lhe realismo cultural – disse Patelski. - Neste tipo de questões é útil não desconhecer completamente a História. A alternativa ao relativismo cultural é o absolutismo cultural, em que uma cultura é considerada superior a todas as outras. Esta ideia esbarra, porém, em sentido filosófico, no dado histórico de que toda a gente, em todas os séculos, em todas as partes do mundo sempre considerou a sua cultura superior a todas as outras.

- Pode inventar-se alguma argumentação filosófica que justifique a rejeição de imigrantes? - perguntei.

- Se quiser chamar filósofo a Platão - respondeu - , é-se obrigado a concluir que faz parte das possibilidades, porque ele dá nas suas Leis a responsabilidade ao governo para, através de emigração e imigração, manter o número ideal de habitantes na área que governa. Porém, isto não é um raciocínio ético, mas uma consideração pragmática centrada no bem-estar do próprio grupo. De resto, tendo em conta o envelhecimento da Europa, com base no critério de Platão, devia tomar-se a decisão de permitir a imigração e estimulá-la. No entanto, assim que se aborda eticamente a questão de migração, esta torna-se terrivelmente banal. Todas as ideias de justiça partem do princípio de igualdade entre pessoas. Como a ética é universal e igualitária, o princípio das fronteiras abertas torna-se implícito pela própria ética. Por nós todos sermos migrantes, e nenhum de nós poder reivindicar uma ascendência despontada nos torrões de terra onde estamos, não há um argumento com base no qual nós possamos negar aos outros o direito à migração. Há muito a favor de considerarmos a migração um direito fundamental, porque, sem o direito a migrar, toda a gente ficaria a vida inteira condenada ao destino que lhe calhou na lotaria dos lugares de nascença, e isso nunca poderia estar em conformidade com um único princípio de justiça. Além de que a migração tem origem na injustiça. Sejam as causas da perseguição e da violência, ou então de uma gritante desigualdade económica, elas não vêm ao caso. Para mais nós, no Ocidente somos ainda culpados dessa injustiça. Muitos imigrantes fogem de guerras que nós provocámos, ou de regimes que nós, por razões de pragmatismo, apoiamos. A desigualdade económica entre a Europa e a África é uma consequência da nossa exploração colonialista no passado e da nossa actual exploração capitalista exaustiva das fontes de recursos naturais. Com base nestas reflexões, a rejeição de imigrantes é injusta e torna-se até mesmo um crime abjecto se compreendermos que a nossa política restritiva provoca desse modo milhares de vítimas mortais, que se afogam no mar ou asfixiam em camiões, porque nós lhes fechámos todas as rotas regulares e seguras para a Europa. A única consideração em que nos podemos fundamentar para repelir imigrantes é que defendemos o nosso território como os animais. Mas os animais não sabem o que é a justiça. E nós vamos, aliás, perder essa luta, porque eles são muito mais; portanto, até mesmo por motivos práticos, essa estratégia não me parece elegível.

 

excerto de Grand Hotel Europa, de Ilja Leonard Pfeijffer (Livros do Brasil)

 

Relacionado: https://pt.euronews.com/my-europe/2025/07/18/taxas-de-natalidade-em-minimos-quais-os-paises-menos-ferteis-da-europa

 

08.09.25

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O excesso de informação dificulta o raciocínio e o excesso de reflexão, a sabedoria. É preciso escolher. Nenhuma posse supera a renúncia eficaz. Bem entendida, a cultura é um instrumento para ignorar com conhecimento de causa.

excerto de □ Não sou um robô, de Juan Villoro (Zigurate)

 

 

21.07.25

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Generally, polling ignores what people know about the subjects they are queried on. In a culture that is not obsessed with measuring and ranking  hings, this omission would probably be regarded as bizarre. But let us imagine what we would think of opinion polls if the questions came in pairs, indicating what people "believe" and what they "know" about the subject. If I may make up some figures, let us suppose we read the following: "The latest poll indicates that 72 percent of the American public believes we should withdraw economic aid from Nicaragua. Of those who expressed this opinion, 28 percent thought Nicaragua was in central Asia, 18 percent thought it was an island near New Zealand, and 27.4 percent believed that Africans should help themselves,’ obviously confusing Nicaragua with Nigeria. Moreover, of those polled, 61.8 percent did not know that we give economic aid to Nicaragua, and 23 percent did not know what ‘economic aid' means.” Were pollsters inclined to provide such information, the prestige and power of polling would be considerably reduced. Perhaps even congressmen, confronted by massive ignorance, would invest their own understandings with greater trust.

The fourth problem with pollingis that it shifts the locus of responsibility between political leaders and their constituents. It is true enough that congressmen are supposed to represent the interests of their constituents. But it is also true that congressmen are expected to use their own judgment about what is in the public's best interests. For this, they must consult their own experience and knowledge. Before the ascendance of polling, political leaders, though never indifferent to the opinions of their constituents, were largely judged on their capacity to make decisions based on such wisdom as they possessed; that is, political leaders were responsible for the decisions they made. With the refinement and extension of the polling process, they are under increasing pressure to forgo deciding anything for themselves and to defer to the opinions of the voters, no matter how ill-informed and shortsighted those opinions might be.

 

excerpt of Technopoly - The Surrender of Culture to Technology, by Neil Postman

04.10.24

O bisavô da telenovela chama-se folhetim

As narrativas longas, com muitas personagens, impossíveis de consumir num só dia, têm milhares de anos. A que mais revela o gosto dos receptores por esse modelo é As Mil e Uma Noites, uma criação colectiva em árabe, compilada a partir do século XI. Sherazade arrisca a vida para terminar com a loucura do sultão, que traído pela mulher, decidira deitar-se todas as noites com uma virgem e mandá-la matar no dia seguinte. Sherazade oferece-se como virgem por uma noite, mas começa a encantar o sultão com uma narrativa que não termina nessa primeira noite: pelo contrário, fica em suspenso. E, a cada jornada, repete-se o mesmo modelo até que, mil noites depois, o sultão decidir casar com Sherazade. A narrativa das "mil e uma noites" termina em felicidade. Sherazade, a narradora, conquistou o seu público - o sultão na estória, os ouvintes ou os leitores da estória - através da narrativa contínua, com suspense no fim de cada episódio. A narrativa, a ficção, salva Sherazade.

Esta obra remete-nos também para a literatura oral: não só Sherazade narra, dentro da ficção, directamente para o sultão como os próprios contadores desta história ficcional o fizeram durante séculos. O mesmo sucedeu com as epopeias gregas, chinesas, com as medievais europeias e tantas outras. Não podemos levar longe demais a filiação da telenovela nestas formas antigas, mas apenas sublinhar o gosto inato do ser humano pela audição ao vivo de narrativas longas, complexas na teia de acções e personagens, e com pontos de suspense. São características de que a telenovela se apropria, mas por outra via, a do folhetim. O folhetim surge na primeira metade do século XIX. É uma criação literária da imprensa diária, quer dizer, da primeira indústria cultural de massas, os jornais. Os capítulos ocupavam todo o rodapé do jornal, podendo ser recortados para guardar. Terminavam com um momento de suspense, para levar à leitura - à compra do jornal - no dia seguinte. Muitos autores escreviam à medida da publicação. Alguns alteravam a narrativa de acordo com as sugestões dos leitores. O folhetim, escrito e publicado em letra de forma, tinha, porém, uma dimensão oral, sendo lido em voz alta por grupos populares nas ruas e tascas, e nas salas por famílias burguesas. O folhetim já apresentava, no século XIX, a dimensão de uma indústria cultural: Alexandre Dumas tinha uma oficina de argumentistas que escreviam os folhetins segundo as suas indicações. Também já existia a transmediação, isto é, a passagem de um conteúdo de um medium ou meio para outro, com a publicação do folhetim em livro depois de terminado no jornal. Quando a rádio se afirmou como meio de massas, o folhetim saltou para as ondas hertzianas, primeiro nos EUA, depois por todo o mundo ocidental. Nos EUA, o folhetim na rádio - ou teatro radiofónico, como se chamou em Portugal - nasceu com o cordão umbilical ligado à indústria de detergentes e produtos de higiene, pelo que ficou conhecido como soap opera, "ópera de sabão". Embora sem qualquer relação com a ópera, o conteúdo tinha uma forte carga melodramática, associada às óperas românticas. Da rádio, o folhetim saltou para a fotonovela, para a telenovela e, ainda, no mesmo modelo episódico, para a banda desenhada. No cinema, no início do século XX, houve igualmente novelas, com um episódio semanal com transmutação para os jornais do mesmo grupo editorial que as produzia. Apesar da frequente associação do folhetim ao teatro, as semelhanças são reduzidas. De semelhante há a intensidade dramática e a insistência em núcleos familiares. A telenovela também teve, e tem ainda, uma similitude adicional, resultante de os cenários em estúdio se parecerem com cenários do palco teatral, com três paredes diante do público ou da audiência. A representação de tipo teatral, muito pesada nas primeiras décadas da telenovela, resultante do tipo de diálogos mas principalmente da origem dos actores, foi depois substituída pelo tipo de representação naturalista e, em qualquer caso, o "ar" teatral dos actores existiu noutras formas do audiovisual, quer no cinema quer noutros géneros televisivos.

Apesar de a telenovela ser descendente do folhetim impresso e do teatro radiofónico, essa filiação perdeu-se com a autonomização crescente do género televisivo: a telenovela é como um bisneto que já nada, ou quase nada, sabe sobre o bisavô folhetim, mesmo que partilhem algumas características estruturais: a serialização e a apresentação diária; a profusão de personagens, com presença obrigatória de um par romântico do princípio ao fim, e sua divisão por núcleos familiares de vários extractos sociais; existência de gancho ou cliffhanger, um momento de suspense interrompido no final de cenas ou dos episódios; evolução improvável ou até irrealista de fios narrativos, mas, em simultâneo, uma grande preocupação com o realismo e a verosimilhança das situações; presença acentuada ou centragem em personagens femininas; ligação forte ao público ou audiência; relação umbilical com a indústria mediática em que se insere. 

excerto de Telenovela, Indústria & Cultura, Lda., de Eduardo Cintra Torres (FFMS)

21.08.24

Sabemos que a literatura exerceu um papel fundamental em processos de criação de identidade nacional como os da Alemanha e da Itália no século XIX, prestigiando a língua que haveria de se tornar o padrão unificador. Neste sentido, serviu como uma ferramenta activa. É fácil demonstrar que, atualmente, perdeu essa posição hegemónica, superada em influência social por outros meios de divulgação generalizada, mas que o seu prestígio não declinou por completo no âmbito dos bens, e que este estatuto ainda lhe permite cumprir, em certos contextos, uma função instrumental. Um livro recente de Jaume Subirana, «Construir con palabras. Escritores, literatura e identidad en Cataluña (1859-2019)», demonstra como, no caso catalão, a literatura continua a ser uma ferramenta activa.

Um aspeto fundamental da reflexão de Even-Zohar acerca da constituição de reportórios de bens representativos, por um lado, e de modelos e opções para a vida, por outro, é que a adopção de um reportório partilhado é o que confere coesão e diferenciação a uma entidade coletiva. Encontramos aqui a explicação teórica do conceito de coesão social tantas vezes invocado, mas também vemos como a própria comunidade, e não apenas o sentimento de pertença, se constrói em torno do reportório. O reportório permite criar e manter a identidade coletiva: pode ser inventado ou importado, mas é a adesão a um reportório que cria laços na comunidade.

Afecta todas as categorias da experiência: a língua, a alimentação, a indumentária, os rituais religiosos, os sistemas de parentesco, a distribuição do horário quotidiano, a gestão das emoções, o comportamento sexual, a atitude perante o trabalho, mas também a ligação a um património de bens preciosos, um cânone de escritos, de obras plásticas, de efemérides ou monumentos, que, portanto, se convertem, por sua vez, numa ferramenta ativa de distinção em relação a outros grupos.

É da coesão que depende a disposição dos indivíduos para se solidarizarem com o grupo e colocarem-se ao seu serviço: seja para ir à guerra, ajudar em desastres ou contribuir para o bem comum. Esta coesão é necessária para a sobrevivência das grandes entidades, mas, além disso, faz falta um esforço, um trabalho cultural para incrementar e melhorar as opções disponíveis. De acordo com Even-Zohar, a riqueza de uma sociedade, em termos culturais, não se mede pelo seu património em bens mas pelo volume da sua «caixa de ferramentas», ou seja, pela disponibilidade de opções. Dispomos, assim, de parâmetros distintos dos meramente económicos para avaliar o estado da sociedade: pelo nível de organização, posição alcançada, entreajuda dos seus membros, capacidade para agir, autoconfiança e acesso a oportunidades de empreendedorismo. É nisto que consiste o capital cultural coletivo. Deste modo, propõe Even-Zohar, a energia de uma sociedade e a sua capacidade para responder a novos desafios e crises estão relacionadas com a atividade investida em planeamento e em alargar o leque de opções.

excerto de Como o ar que respiramos - O sentido da cultura, de Antonio Monegal

 

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