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Depois da sua ascensão ao poder, Xi-Jiping encorajou as empresas chinesas de alta tecnologia a partir ao assalto do mercado mundial. Em 2012, uma delas, ByteDance, inova ao recorrer à inteligência artificial para propor uma plantaforma de informação oferecendo conteúdos à medida dos seus utilizadores, TouTiao, que conta 120 milhões de utilizadores activos na China em 2017. Em Setembro de 2016, lança Douyin ("Música Vibrante"), uma aplicação de videos musicais de curta duração, apoiada, ela também, sobre os dados dos seus utilizadores chineses para propor, de maneira aparentemente aleatória, um conteúdo à medida. Por fim, em 2017, ByteDance lança o TikTok, a versão do Douyin destinada ao mercado exterior, e compra por perto de um milhão de dólares o seu principal concorrente, Musical.ly, que era a aplicação musical mais descarregada pelos jovens de uma vintena de países, entre os quais a França e os Estados Unidos. A ByteDance integra então o conteúdo do Musical.ly no TikTok, e recorre ao serviço de influenciadores e celebridades para partir à conquista do mercado mundial, ou mais exactamente do cérebro do maior número possível de utilizadores por esse mundo fora.
Com efeito, tal como numerosas aplicações americanas, o TikTok explora o circuito de recompensa da dopamina, identificado desde 1954 por um jovem psicólogo de Harvard, James Olds, no seguimente das célebres experiências levadas a cabo por Burrhus Frederik Skinner nos anos 1930. A dopamina é um neurotransmissor libertado pelo cérebro ao antecipar uma recompensa. Em tempos normais, ela reforça os comportamentos úteis à sobrevivência, como o facto de comer, mas ela pode ser desviada para formar novos comportamentos, como o de fazer desfilar videos curtos sobre um écran de telemóvel. O carácter aleatório de uma recompensa reforça a esse ponto comportamentos que se tornam aditivos, o que é explorado desde muito tempo quer pelos construtores de máquinas de casino quer pelos designers de redes sociais, tais como o Facebook, Instagram ou Tinder.
Todavia, em matéria de adição, o TikTok ultrapassa de longe os seus concorrentes americanos, o que se traduz por um crescimento inédito e espectacular do número de utilizadores no mundo. Cinco anos apenas após o seu lançamento, a aplicação totaliza 1,7 mil milhões de utilizadores activos por mês no mundo, dos quais 100 milhões nos Estados Unidos, onde 30% dos adultos e 67% dos adolescentes o utilizam em 2022. Os conteúdos difundidos pelos tiktokers são atraentes e distrativo (danças e canções em playback), contagiantes (através dos desafios que lançam), enquanto que o "scroll", que consiste em passar de um video aleatório para outro, implica um consumo passivo e fortemente aditivo dos conteúdos. No Reino Unido os jovens adultos (15-24 anos) passam agora 57 minutos por dia no TikTok, ou seja mais que frente ao televisor, segundo a Ofcom, o regulador dos media do outro lado do canal da Mancha.
O TikTok, ao invés, é interdito na China, onde a sua versão local, Douyin, aplica de forma estrita as regras da censura do PCC a propósito de conteúdos de videos online. É assim interdito de emitir "opiniões malsãs e não convencionais sobre o casamento e o amor contrários à moral". Em consequência, por exemplo, os videos que mostram pessoas da comunidade LGBT são sistematicamente suprimidos. Em Dezembro de 2022, o fundador do Centro para uma tecnologia humana, o especialista em ética Tristan Harris, alerta numa emissão do programa 60 minutos da CBS para a diferença entre a versão destinada ao público chinês e aquela destinada ao resto do mundo: "Na versão chinesa, se o utilizador tem menos de 14 anos, é-lhe mostrado experiências científicas que podem ser reproduzidas em casa, visitas a museus, videos patrióticos ou educativos. E a utilização é limitada a 40 minutos diários. Esta versão não é difundida para o resto do mundo. Os chineses sabem que a tecnologia influencia o desenvolvimento dos jovens. Para o seu mercado doméstico, eles vendem uma forma empobrecida enquanto que exportam ópio para o resto do mundo".
No que respeita a este assunto, efectivamente, o TikTok aparece como uma arma ao serviço da "guerra chinesa do ópio 2.0", segundo a fórmula de William-Jin Robin. Em 1839, o Reino Unido declarou guerra à China a seguir à interdição pela dinastia Qing da venda de ópio onde o império britânico tinha o monopólio e organizava importações ilegais a partir da Indía. A derrota da China, em 1839 e em 1860, levou ao enfraquecimento da soberania chinesa no seguimento de "tratados desiguais" impostos pelas potências coloniais ocidentais. Hoje, a difusão do TikTok no mundo inteiro aparece como uma vingança histórica da China, que enfraquece as potências ocidentais ao captar massivamente a atenção da sua juventude, desviando-a de actividades mais úteis. Com efeito, o estado hipnótico e onírico de certos utilizadores do TikTok evoca o dos chineses agarrados ao ópio, tal como descrito por numerosos autores do século XIX. A aplicação foi concebida para encorajar os seus utilizadores a reagirem a estímulos, e não a reflectir, através de um visionamento passivo, enquanto o algoritmo preside à selecção dos videos que desfilam, estabelecendo uma relação intíma com a cognição e a psicologia dos utilizadores.
Através do TikTok, o Partido Comunista Chinês leva a cabo uma subversão dos valores ao difundir conteúdos violentos, de carácter pornográfico, ou incitando ao consumo de drogas, ao passo que os utilizadores chineses do Douyin são cuidadosamente perservados. Em Julho de 2022, os pais de duas crianças mortas após se autoasfixiarem acusaram a plantaforma chinesa de terem conduzido os seus filhos a participar no "jogo do lenço", um "desafio" que encorajava os participantes a se asfixiar até perderem a consciência. "O TikTok, declara o seu advogado Matthew Bergman, deve ser tido como responsável de ter visado estas duas jovens com conteúdos letais. O TikTok investiu milhões de dólares na criação de produtos concebidos para difundir conteúdos perigosos, sabendo que estes conteúdos são perigosos e podem conduzir à morte dos seus utilizadores." O TikTok, que recusa subscrever uma carta francesa de protecção de menores online, recusou igualmente em Fevereiro de 2023 suprimir os videos promovendo o "desafio da cicatriz", que consistia em criar cicatrizes na cara.
Em 2020, Guo Yunfei, presidente da universidade de engenharia de informação das forças de apoio estratégico do Exército de Libertação Popular, afirma que o domínio cognitivo será o "domínio último da confrontação militar entre as grandes potências". Dito de outro modo, o cérebro humano constitui o campo de batalha da guerra do futuro. No ano precedente, a nova estratégia militar da China acrescenta à "guerra informatizada" a noção de "guerra inteligentizada", que se caracteriza por quatro elementos fundamentais: as capacidades acrescidas de tratamento de informação, uma tomada de decisão rápida, o enxame/swarming, que consiste em saturar o alvo de conteúdos, e a guerra cognitiva. Os estrategas chineses afirmam igualmente que o facto de interferir directamente com o cérebro do inimigo ou de o controlar inconscientemente "pode provocar neste danos mentais, confusão e halucinações, forçando-o a depor as armas e render-se". À escala duma nação, a "guerra inteligentizada" pode enfraquecer uma sociedade. A China, qualificada como "o homem doente da Ásia" no século XIX pelos ocidentais, pode muito bem ter como ambição última fazer dos países ocidentais "os homens doentes" do século XXI.
tradução selvagem feita a páginas 390 de La Guerre de l'information, Les États à la conquête de nos esprits, de David COLON