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Leituras Improváveis

um registo digital

Leituras Improváveis

um registo digital

Um povo traído, de Paul Preston

Corrupção, incompetência política e divisão social na Espanha moderna, 1874-2018

12.11.25

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De vez em quando, o excesso de zelo de funcionários locais produzia maiorias que ultrapassavam os 100 por cento do eleitorado. Havia casos em que os resultados eram publicados antes de as eleições se realizarem. Com o avançar do século, depois da introdução do sufrágio universal masculino, a falsificação tonou-se cada vez mais difícil e, se não conseguissem o número de votos necessário, os caciques às vezes registavam os mortos no cemitério local como eleitores. Em Madrid em 1896, os eleitores ficticios, conhecidos por Lázaros, receberam os nomes de eleitores falecidos. Muitas vezes, bandos de eleitores pagos eram enviados de aldeia em aldeia para votar no partido do governo. Em 1879, Romero Robledo usou a técnica das «brigadas móveis - 200 aragoneses correram Madrid de secção de voto em secção de voto para votar. Conta-se que um homem votou quarenta e duas vezes. A alteração da lista eleitoral ou o acréscimo ou subtração de votos era conhecida por pucherazo ou tupinada, ou encher o pote. Às vezes, eram colocados anúncios na imprensa local dizendo, falsamente, que um adversário retirara a sua candidatura. Mais comum era alterar o horário das eleições para que eleitores hostis não chegassem a tempo ou mandar rufiões intimidar eleitores rivais. Outras vezes, as urnas de voto eram colocadas em lugares onde os eleitores não quereriam ir, num hospital de doenças contagiosas, numa pocilga ou num telhado alto.

excerto de Um povo traído - Corrupção, incompetência política e divisão social na Espanha moderna, 1874-2018, de Paul Preston (Edições 70)

 

07.11.25

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Depois da sua ascensão ao poder, Xi-Jiping encorajou as empresas chinesas de alta tecnologia a partir ao assalto do mercado mundial. Em 2012, uma delas, ByteDance, inova ao recorrer à inteligência artificial para propor uma plantaforma de informação oferecendo conteúdos à medida dos seus utilizadores, TouTiao, que conta 120 milhões de utilizadores activos na China em 2017. Em Setembro de 2016, lança Douyin ("Música Vibrante"), uma aplicação de videos musicais de curta duração, apoiada, ela também, sobre os dados dos seus utilizadores chineses para propor, de maneira aparentemente aleatória, um conteúdo à medida. Por fim, em 2017, ByteDance lança o TikTok, a versão do Douyin destinada ao mercado exterior, e compra por perto de um milhão de dólares o seu principal concorrente, Musical.ly, que era a aplicação musical mais descarregada pelos jovens de uma vintena de países, entre os quais a França e os Estados Unidos. A ByteDance integra então o conteúdo do Musical.ly no TikTok, e recorre ao serviço de influenciadores e celebridades para partir à conquista do mercado mundial, ou mais exactamente do cérebro do maior número possível de utilizadores por esse mundo fora.

Com efeito, tal como numerosas aplicações americanas, o TikTok explora o circuito de recompensa da dopamina, identificado desde 1954 por um jovem psicólogo de Harvard, James Olds, no seguimente das célebres experiências levadas a cabo por Burrhus Frederik Skinner nos anos 1930. A dopamina é um neurotransmissor libertado pelo cérebro ao antecipar uma recompensa. Em tempos normais, ela reforça os comportamentos úteis à sobrevivência, como o facto de comer, mas ela pode ser desviada para formar novos comportamentos, como o de fazer desfilar videos curtos sobre um écran de telemóvel. O carácter aleatório de uma recompensa reforça a esse ponto comportamentos que se tornam aditivos, o que é explorado desde muito tempo quer pelos construtores de máquinas de casino quer pelos designers de redes sociais, tais como o Facebook, Instagram ou Tinder.

Todavia, em matéria de adição, o TikTok ultrapassa de longe os seus concorrentes americanos, o que se traduz por um crescimento inédito e espectacular do número de utilizadores no mundo. Cinco anos apenas após o seu lançamento, a aplicação totaliza 1,7 mil milhões de utilizadores activos por mês no mundo, dos quais 100 milhões nos Estados Unidos, onde 30% dos adultos e 67% dos adolescentes o utilizam em 2022. Os conteúdos difundidos pelos tiktokers são atraentes e distrativo (danças e canções em playback), contagiantes (através dos desafios que lançam), enquanto que o "scroll", que consiste em passar de um video aleatório para outro, implica um consumo passivo e fortemente aditivo dos conteúdos. No Reino Unido os jovens adultos (15-24 anos) passam agora 57 minutos por dia no TikTok, ou seja mais que frente ao televisor, segundo a Ofcom, o regulador dos media do outro lado do canal da Mancha.

O TikTok, ao invés, é interdito na China, onde a sua versão local, Douyin, aplica de forma estrita as regras da censura do PCC a propósito de conteúdos de videos online. É assim interdito de emitir "opiniões malsãs e não convencionais sobre o casamento e o amor contrários à moral". Em consequência, por exemplo, os videos que mostram pessoas da comunidade LGBT são sistematicamente suprimidos. Em Dezembro de 2022, o fundador do Centro para uma tecnologia humana, o especialista em ética Tristan Harris, alerta numa emissão do programa 60 minutos da CBS para a diferença entre a versão destinada ao público chinês e aquela destinada ao resto do mundo: "Na versão chinesa, se o utilizador tem menos de 14 anos, é-lhe mostrado experiências científicas que podem ser reproduzidas em casa, visitas a museus, videos patrióticos ou educativos. E a utilização é limitada a 40 minutos diários. Esta versão não é difundida para o resto do mundo. Os chineses sabem que a tecnologia influencia o desenvolvimento dos jovens. Para o seu mercado doméstico, eles vendem uma forma empobrecida enquanto que exportam ópio para o resto do mundo".

No que respeita a este assunto, efectivamente, o TikTok aparece como uma arma ao serviço da "guerra chinesa do ópio 2.0", segundo a fórmula de William-Jin Robin. Em 1839, o Reino Unido declarou guerra à China a seguir à interdição pela dinastia Qing da venda de ópio onde o império britânico tinha o monopólio e organizava importações ilegais a partir da Indía. A derrota da China, em 1839 e em 1860, levou ao enfraquecimento da soberania chinesa no seguimento de "tratados desiguais" impostos pelas potências coloniais ocidentais. Hoje, a difusão do TikTok no mundo inteiro aparece como uma vingança histórica da China, que enfraquece as potências ocidentais ao captar massivamente a atenção da sua juventude, desviando-a de actividades mais úteis. Com efeito, o estado hipnótico e onírico de certos utilizadores do TikTok evoca o dos chineses agarrados ao ópio, tal como descrito por numerosos autores do século XIX. A aplicação foi concebida para encorajar os seus utilizadores a reagirem a estímulos, e não a reflectir, através de um visionamento passivo, enquanto o algoritmo preside à selecção dos videos que desfilam, estabelecendo uma relação intíma com a cognição e a psicologia dos utilizadores.

Através do TikTok, o Partido Comunista Chinês leva a cabo uma subversão dos valores ao difundir conteúdos violentos, de carácter pornográfico, ou incitando ao consumo de drogas, ao passo que os utilizadores chineses do Douyin são cuidadosamente perservados. Em Julho de 2022, os pais de duas crianças mortas após se autoasfixiarem acusaram a plantaforma chinesa de terem conduzido os seus filhos a participar no "jogo do lenço", um "desafio" que encorajava os participantes a se asfixiar até perderem a consciência. "O TikTok, declara o seu advogado Matthew Bergman, deve ser tido como responsável de ter visado estas duas jovens com conteúdos letais. O TikTok investiu milhões de dólares na criação de produtos concebidos para difundir conteúdos perigosos, sabendo que estes conteúdos são perigosos e podem conduzir à morte dos seus utilizadores." O TikTok, que recusa subscrever uma carta francesa de protecção de menores online, recusou igualmente em Fevereiro de 2023 suprimir os videos promovendo o "desafio da cicatriz", que consistia em criar cicatrizes na cara.

Em 2020, Guo Yunfei, presidente da universidade de engenharia de informação das forças de apoio estratégico do Exército de Libertação Popular, afirma que o domínio cognitivo será o "domínio último da confrontação militar entre as grandes potências". Dito de outro modo, o cérebro humano constitui o campo de batalha da guerra do futuro. No ano precedente, a nova estratégia militar da China acrescenta à "guerra informatizada" a noção de "guerra inteligentizada", que se caracteriza por quatro elementos fundamentais: as capacidades acrescidas de tratamento de informação, uma tomada de decisão rápida, o enxame/swarming, que consiste em saturar o alvo de conteúdos, e a guerra cognitiva. Os estrategas chineses afirmam igualmente que o facto de interferir directamente com o cérebro do inimigo ou de o controlar inconscientemente "pode provocar neste danos mentais, confusão e halucinações, forçando-o a depor as armas e render-se". À escala duma nação, a "guerra inteligentizada" pode enfraquecer uma sociedade. A China, qualificada como "o homem doente da Ásia" no século XIX pelos ocidentais, pode muito bem ter como ambição última fazer dos países ocidentais "os homens doentes" do século XXI.

tradução selvagem feita a páginas 390 de La Guerre de l'information, Les États à la conquête de nos esprits, de David COLON 

 

04.11.25

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EXPOSIÇÃO “FRANCISCO SÁ CARNEIRO E A CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA PORTUGUESA”
Entrada Livre
30-10-2025 a 31-01-2026
PAVILHÃO “E” DO “LISBOA SOCIAL MITRA”

 

31.10.25

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Pergunta do público: Há dramas da história contemporânea que foram pouco ou quase nada cobertos pelos jornais. Refiro-me, por exemplo, às perseguições de algumas minorias religiosas e étnicas no Irão. Por que é que determinados factos nunca entraram na agenda da imprensa internacional?
 
Ryszard Kapuściński: Porque a imprensa internacional é manipulada. E são várias as razões de tal manipulação. Há, por exemplo, razões de ordem ideológica: de entre as actividades humanas, os meios de comunicação são os mais manipulados, na medida em que são instrumentos para influenciar a opinião pública e podem ser usados de várias formas consoante quem os gere. Existem diversas técnicas de manipulação. Nos jornais, podemos fazer uma manipulação através do que decidimos pôr na primeira página, do título que escolhemos e do espaço que damos a um acontecimento. Há centenas de formas de manipular notícias na imprensa. E outras centenas na rádio e na televisão. E sem dizer mentiras. O problema da rádio e da televisão é que não é necessário mentir: podem limitar-se a não reflectir a verdade. O sistema é muito simples: omitir o assunto. A maior parte dos espectadores da televisão recebem de modo muito passivo o que lhes é dado. Os patrões das cadeias televisivas decidem por eles o que devem pensar. Determinam a lista de coisas em que se deve pensar e o que se deve pensar sobre elas. Não podemos estar à espera de que o telespectador médio realize estudos independentes sobre a situação do mundo, seria impossível, inclusive para os especialistas. O homem médio, que trabalha, regressa a casa cansado e quer simplesmente estar um pouco com a família, só recebe o que chega até ele naqueles cinco minutos de telejornal. Os assuntos principais que dão vida às «notícias do dia» decidem o que pensamos do mundo e o modo como o pensamos.
Trata-se de uma arma fundamental na construção da opinião pública. Se não falarmos de um acontecimento, este simplesmente não existe. Com efeito, para a maior parte das pessoas, «as notícias do dia» são a única forma de conhecer alguma coisa do mundo. Testemunhei pessoalmente essa situação em Moscovo, em 1991, aquando da tentativa de derrubar o primeiro governo de Boris leltsin e de restaurar o comunismo. O acontecimento principal, que determinou tudo, ocorreu em Leningrado, actual São Petersburgo. No entanto, as equipas televisivas estavam todas em Moscovo. O problema das televisões e dos meios de comunicação em geral é que são tão grandes, influentes e importantes que começaram a criar um mundo só deles. Um mundo que tem muito pouco a ver com a realidade. De resto, esses meios de comunicação não estão interessados em reflectir a realidade do mundo, mas sim em competir entre si. Uma estação televisiva, ou um jornal, não pode permitir-se não ter a notícia que o seu concorrente directo tem. De modo que acabam por observar os seus concorrentes em vez de observar a vida real.
Actualmente, os meios de comunicação andam em bandos, quais ovelhas em rebanhos: não podem deslocar-se separadamente. Por isso, lemos e escutamos os mesmos relatos, as mesmas notícias sobre os factos por eles reportados. Vejam a Guerra do Golfo: 200 equipas televisivas concentram-se na mesma zona. Ao mesmo tempo, muitas outras coisas importantes, até mesmo cruciais sucedem-se noutras partes do mundo. Não importa, ninguém falará sobre isso: estão todos no Golfo. Porque o objectivo de todas as grandes cadeias televisivas não é dar uma imagem do mundo, mas sim não serem ultrapassadas pelas suas concorrentes. Se, de repente, há outro grande acontecimento, todos se deslocam nessa nova direcção e ali ficam de atalaia sem tempo para fazer a cobertura de outros lugares. Este é o modo como o homem médio constrói uma ideia da situação mundial.
Obviamente, há revistas, publicações periódicas e, sobretudo, livros que fornecem uma imagem mais equilibrada e completa, mas são para minorias, para pequenos grupos de especialistas. Para o grande público, a informação é apenas o resultado da competição, da luta entre os diversos meios de comunicação. O que é outra história.
 
excerto de Os cínicos não servem para este ofício, de Ryszard Kapuściński (Relógio d'Água)
 

21.10.25

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Excerto do Manifesto Eleitoral

 

9. Fecho e venda de todas as embaixadas de Portugal no mundo. Todos os embaixadores serão chamados para trabalhar em Portugal em teletrabalho. O passaporte português dará desconto de 50% em todos os bares e festas e entrada gratuita em todos os concertos do mundo.

10. Construção da nova capital — VIEIRAPOLIS ou VPOLIS— no centro geodésico do país, para 10 milhões de habitantes. Por baixo dela, a maior inteligência artificial portuguesa da história, o Chat VIEIRA69, que vai resolver todos os problemas do estado em menos de um segundo. Resultado: a função pública é extinta e substituída por um botão com a palavra “Resolver”.

Este é o futuro. Com todas as poupanças na administração do estado que vos proponho é possível garantir um rendimento mínimo obrigatório de 5.000€ por mês (líquidos) para cada português sem trabalhar. Quero acabar com a miséria que dura há mais de 300 anos. Quero um país mais justo, mais limpo, mais rico, mais seguro, mais criativo, mais eficiente, mais inclusivo, mais honesto, mais igual, mais bonito e mais divertido…

Só desisto se for eleito!

Viva Portugal!

https://vieira2026.com

 

 

 

 

18.10.25

Manifestação pacífica marcada para múltiplas cidades dos EUA e de outros países, este sábado. Em Portugal, a tradição liberal mora mais a norte, pelo que neste momento só temos uma manifestação no Porto (Praça General Humberto Delgado, 14h).

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https://www.nokings.org

 

08.10.25

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[3 DM - três anos após a morte de Elon Musk - causada por excesso de implantes cerebrais]

- eleitor pode votar nas redes sociais, em app própria para o efeito, ou em pensamento telepático dirigido à CNE.

- reconhecimento biométrico valida a sua inscrição nos cadernos eleitorais

- IA pode sugerir voto, com base em dados recolhidos diariamente, a partir da utilização da web feita por cada eleitor

- no EBay, OLXs e quejandos, forma-se um mercado secundário de direito de votos, em que partidos trocam bitcoins por orgãos vitais votos

- o período de reflexão é eliminado, pois existe um desconhecimento generalizado do significado do verbo reflectir

- AT sorteia vinte garrafões de azeite entre os eleitores que fizerem prova de ter votado, mas acrescenta esse valor à matéria colectável em sede de IRS (cinco garrafões é o equivalente a um Audi topo de gama)

- o Rato Mickey, após acesa disputa com o Pato Donald, é o putativo candidato à presidência dos EUA pelos republicanos

- os democratas ainda estão bastante indecisos entre Elvis Presley e um cacto do deserto (Carnegiea gigantea)

 

Farto de utilizar apps americanas e chinesas?

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