Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Leituras Improváveis

um registo digital

Leituras Improváveis

um registo digital

27.11.25

bmbmbmbmb.jpg

 

A História mostra que não existe uma forma natural de as partes do sistema mundial se organizarem. Nem o sistema possui qualquer propensão inata para se conservar estático, nem as partes para pernanecerem num determinado padrão. Muitas vezes no passado o pêndulo do poder ficou exactamente equilibrado entre dois polos no sistema e nenhuma necessidade histórica inerente ditava que alguém conquistasse uma posição hegemónica. O facto de a Europa se ter destacado no século XVI, substituindo o Médio Oriente como o cerne do sistema mundial, não pode ser usado para defender que apenas a cultura e as instituições europeias poderiam ter sucesso. De facto, como argumenta um historiador, a Europa nem sequer teve de inventar o sistema, uma vez que o trabalho de base essencial já estava disponível no século XIII, quando os europeus se encontravam ainda a viver numa remota periferia. Bastava mudar as regras e reorganizar as peças. Em última análise, o facto de Lisboa, Amesterdão e Londres se terem sucessivamente tornado a pedra angular do sistema foi um facto contingente. Poderia facilmente ter sido o Cairo, Tabriz ou Hangchou.

 

excerto de O despertar da Euroásia - Em busca da Nova Ordem Mundial, de Bruno Maçães (Temas & Debates)

07.11.25

davidcolon.jpg

 

Depois da sua ascensão ao poder, Xi-Jiping encorajou as empresas chinesas de alta tecnologia a partir ao assalto do mercado mundial. Em 2012, uma delas, ByteDance, inova ao recorrer à inteligência artificial para propor uma plantaforma de informação oferecendo conteúdos à medida dos seus utilizadores, TouTiao, que conta 120 milhões de utilizadores activos na China em 2017. Em Setembro de 2016, lança Douyin ("Música Vibrante"), uma aplicação de videos musicais de curta duração, apoiada, ela também, sobre os dados dos seus utilizadores chineses para propor, de maneira aparentemente aleatória, um conteúdo à medida. Por fim, em 2017, ByteDance lança o TikTok, a versão do Douyin destinada ao mercado exterior, e compra por perto de um milhão de dólares o seu principal concorrente, Musical.ly, que era a aplicação musical mais descarregada pelos jovens de uma vintena de países, entre os quais a França e os Estados Unidos. A ByteDance integra então o conteúdo do Musical.ly no TikTok, e recorre ao serviço de influenciadores e celebridades para partir à conquista do mercado mundial, ou mais exactamente do cérebro do maior número possível de utilizadores por esse mundo fora.

Com efeito, tal como numerosas aplicações americanas, o TikTok explora o circuito de recompensa da dopamina, identificado desde 1954 por um jovem psicólogo de Harvard, James Olds, no seguimente das célebres experiências levadas a cabo por Burrhus Frederik Skinner nos anos 1930. A dopamina é um neurotransmissor libertado pelo cérebro ao antecipar uma recompensa. Em tempos normais, ela reforça os comportamentos úteis à sobrevivência, como o facto de comer, mas ela pode ser desviada para formar novos comportamentos, como o de fazer desfilar videos curtos sobre um écran de telemóvel. O carácter aleatório de uma recompensa reforça a esse ponto comportamentos que se tornam aditivos, o que é explorado desde muito tempo quer pelos construtores de máquinas de casino quer pelos designers de redes sociais, tais como o Facebook, Instagram ou Tinder.

Todavia, em matéria de adição, o TikTok ultrapassa de longe os seus concorrentes americanos, o que se traduz por um crescimento inédito e espectacular do número de utilizadores no mundo. Cinco anos apenas após o seu lançamento, a aplicação totaliza 1,7 mil milhões de utilizadores activos por mês no mundo, dos quais 100 milhões nos Estados Unidos, onde 30% dos adultos e 67% dos adolescentes o utilizam em 2022. Os conteúdos difundidos pelos tiktokers são atraentes e distrativo (danças e canções em playback), contagiantes (através dos desafios que lançam), enquanto que o "scroll", que consiste em passar de um video aleatório para outro, implica um consumo passivo e fortemente aditivo dos conteúdos. No Reino Unido os jovens adultos (15-24 anos) passam agora 57 minutos por dia no TikTok, ou seja mais que frente ao televisor, segundo a Ofcom, o regulador dos media do outro lado do canal da Mancha.

O TikTok, ao invés, é interdito na China, onde a sua versão local, Douyin, aplica de forma estrita as regras da censura do PCC a propósito de conteúdos de videos online. É assim interdito de emitir "opiniões malsãs e não convencionais sobre o casamento e o amor contrários à moral". Em consequência, por exemplo, os videos que mostram pessoas da comunidade LGBT são sistematicamente suprimidos. Em Dezembro de 2022, o fundador do Centro para uma tecnologia humana, o especialista em ética Tristan Harris, alerta numa emissão do programa 60 minutos da CBS para a diferença entre a versão destinada ao público chinês e aquela destinada ao resto do mundo: "Na versão chinesa, se o utilizador tem menos de 14 anos, é-lhe mostrado experiências científicas que podem ser reproduzidas em casa, visitas a museus, videos patrióticos ou educativos. E a utilização é limitada a 40 minutos diários. Esta versão não é difundida para o resto do mundo. Os chineses sabem que a tecnologia influencia o desenvolvimento dos jovens. Para o seu mercado doméstico, eles vendem uma forma empobrecida enquanto que exportam ópio para o resto do mundo".

No que respeita a este assunto, efectivamente, o TikTok aparece como uma arma ao serviço da "guerra chinesa do ópio 2.0", segundo a fórmula de William-Jin Robin. Em 1839, o Reino Unido declarou guerra à China a seguir à interdição pela dinastia Qing da venda de ópio onde o império britânico tinha o monopólio e organizava importações ilegais a partir da Indía. A derrota da China, em 1839 e em 1860, levou ao enfraquecimento da soberania chinesa no seguimento de "tratados desiguais" impostos pelas potências coloniais ocidentais. Hoje, a difusão do TikTok no mundo inteiro aparece como uma vingança histórica da China, que enfraquece as potências ocidentais ao captar massivamente a atenção da sua juventude, desviando-a de actividades mais úteis. Com efeito, o estado hipnótico e onírico de certos utilizadores do TikTok evoca o dos chineses agarrados ao ópio, tal como descrito por numerosos autores do século XIX. A aplicação foi concebida para encorajar os seus utilizadores a reagirem a estímulos, e não a reflectir, através de um visionamento passivo, enquanto o algoritmo preside à selecção dos videos que desfilam, estabelecendo uma relação intíma com a cognição e a psicologia dos utilizadores.

Através do TikTok, o Partido Comunista Chinês leva a cabo uma subversão dos valores ao difundir conteúdos violentos, de carácter pornográfico, ou incitando ao consumo de drogas, ao passo que os utilizadores chineses do Douyin são cuidadosamente perservados. Em Julho de 2022, os pais de duas crianças mortas após se autoasfixiarem acusaram a plantaforma chinesa de terem conduzido os seus filhos a participar no "jogo do lenço", um "desafio" que encorajava os participantes a se asfixiar até perderem a consciência. "O TikTok, declara o seu advogado Matthew Bergman, deve ser tido como responsável de ter visado estas duas jovens com conteúdos letais. O TikTok investiu milhões de dólares na criação de produtos concebidos para difundir conteúdos perigosos, sabendo que estes conteúdos são perigosos e podem conduzir à morte dos seus utilizadores." O TikTok, que recusa subscrever uma carta francesa de protecção de menores online, recusou igualmente em Fevereiro de 2023 suprimir os videos promovendo o "desafio da cicatriz", que consistia em criar cicatrizes na cara.

Em 2020, Guo Yunfei, presidente da universidade de engenharia de informação das forças de apoio estratégico do Exército de Libertação Popular, afirma que o domínio cognitivo será o "domínio último da confrontação militar entre as grandes potências". Dito de outro modo, o cérebro humano constitui o campo de batalha da guerra do futuro. No ano precedente, a nova estratégia militar da China acrescenta à "guerra informatizada" a noção de "guerra inteligentizada", que se caracteriza por quatro elementos fundamentais: as capacidades acrescidas de tratamento de informação, uma tomada de decisão rápida, o enxame/swarming, que consiste em saturar o alvo de conteúdos, e a guerra cognitiva. Os estrategas chineses afirmam igualmente que o facto de interferir directamente com o cérebro do inimigo ou de o controlar inconscientemente "pode provocar neste danos mentais, confusão e halucinações, forçando-o a depor as armas e render-se". À escala duma nação, a "guerra inteligentizada" pode enfraquecer uma sociedade. A China, qualificada como "o homem doente da Ásia" no século XIX pelos ocidentais, pode muito bem ter como ambição última fazer dos países ocidentais "os homens doentes" do século XXI.

tradução selvagem feita a páginas 390 de La Guerre de l'information, Les États à la conquête de nos esprits, de David COLON 

 

14.10.25

E que tal experimentar um browser ou um motor de pesquisa europeu?

alternatives to apps usa.jpg

https://european-alternatives.eu

 

07.10.25

asdfasdfggasdfsdfhhhhhhhhh.jpeg

 

- Acha que as pessoas têm razão em sentirem ameaçadas? – perguntei eu.

- Essa é pergunta errada – disse Patelski. – Faz tanto sentido como perguntar se as pessoas têm razão em se sentirem ameaçadas pela água. A água vem. Do mar, das montanhas ou do céu. A água é impossível de conter. Se deixarmos a água correr livremente, o desastre é potencial, mas se a conseguirmos canalizar e a deixarmos fluir controladamente nos nossos campos, ela é uma fonte de vida e riqueza. A migração é igualmente impossível de conter. Quem pensa assim não conhece a história da humanidade. Desde que nos conseguimos pôr em cima de duas pernas, começamos a andar. A partir do nosso berço em África, povoamos os continentes. A migração é a essência do ser humano. Quem pensa poder parar a migração actual vinda de África não conhece o desespero dos emigrantes. Quem está disposto a arriscar a vida não se deixa deter por nada. Sendo assim, perguntar se isso forma uma ameaça é improdutivo. Portanto, se os imigrantes continuam a vir, é mais proveitoso começar a pensar o mais rapidamente possível sobre a questão de como canalizar essas correntes e utilizá-las de uma maneira que seja para nossa vantagem. Se nós, por pânico ou por inadequado sentimento de superioridade, nos recusamos a empregar inteligentemente os afluxos de imigrantes a favor da nossa sociedade, seremos invadidos de uma maneira que representa um desastre potencial. Se realmente o fizermos, o problema da migração torna-se uma solução. A Europa está a envelhecer. Todas as manhãs vejo a prova mais convincente disso ao espelho. Com o nosso actual perfil demográfico, é impossível manter a nossa saúde e as pensões ao mesmo nível. Sem a migração, é difícil imaginar um futuro para a Europa.

- Isso não leva à destruição da nossa cultura?

- Cada cultura é um cocktail – disse Patelski. – E a composição da mistura está continuamente sujeita a mudanças. Isso caracteriza uma cultura viva. Quem quer ver uma cultura que se petrificou numa imobilidade estática e princípios cinzelados em mármore pode visitar os templos gregos e romanos. O que actualmente sobrevive dessas culturas extintas é precisamente aquilo que se deixou diluir, contaminar e corromper por dois milénios de influências estranhas. O presente medo da islamização de Europa é idêntico ao de um patrício romano no séc. IV pela cristianização do império. Eu também poderia citar Horácio: “A Grécia subjugada subjugou o seu feroz conquistador”. Entendo o que quer dizer. O confronto entre duas culturas não leva à substituição de uma por outra, mas a uma nova cultura, em que ambas, magicamente, podem ser declaradas vencedoras. Até mesmo os conquistadores espanhóis, armados até aos dentes, não conseguiram destruir totalmente, apesar de tentativas furiosas, a cultura original dos habitantes da América do Sul. Ela volta alguns séculos mais tarde na sua língua, nos livros de Garcia Marquez, para contagiar a sua própria cultura e mudar o seu modo de pensar. Se a Europa for islamizada o Islão lá há-de mudar tanto como a Europa. Mais de perguntar se isto pode ser travado, muito provavelmente pode ser visto a nível mundial como um progresso.

- Esta opinião poderia ser escarnecida por muitos como uma forma extrema de relativismo cultural – notei.

- Chame-lhe realismo cultural – disse Patelski. - Neste tipo de questões é útil não desconhecer completamente a História. A alternativa ao relativismo cultural é o absolutismo cultural, em que uma cultura é considerada superior a todas as outras. Esta ideia esbarra, porém, em sentido filosófico, no dado histórico de que toda a gente, em todas os séculos, em todas as partes do mundo sempre considerou a sua cultura superior a todas as outras.

- Pode inventar-se alguma argumentação filosófica que justifique a rejeição de imigrantes? - perguntei.

- Se quiser chamar filósofo a Platão - respondeu - , é-se obrigado a concluir que faz parte das possibilidades, porque ele dá nas suas Leis a responsabilidade ao governo para, através de emigração e imigração, manter o número ideal de habitantes na área que governa. Porém, isto não é um raciocínio ético, mas uma consideração pragmática centrada no bem-estar do próprio grupo. De resto, tendo em conta o envelhecimento da Europa, com base no critério de Platão, devia tomar-se a decisão de permitir a imigração e estimulá-la. No entanto, assim que se aborda eticamente a questão de migração, esta torna-se terrivelmente banal. Todas as ideias de justiça partem do princípio de igualdade entre pessoas. Como a ética é universal e igualitária, o princípio das fronteiras abertas torna-se implícito pela própria ética. Por nós todos sermos migrantes, e nenhum de nós poder reivindicar uma ascendência despontada nos torrões de terra onde estamos, não há um argumento com base no qual nós possamos negar aos outros o direito à migração. Há muito a favor de considerarmos a migração um direito fundamental, porque, sem o direito a migrar, toda a gente ficaria a vida inteira condenada ao destino que lhe calhou na lotaria dos lugares de nascença, e isso nunca poderia estar em conformidade com um único princípio de justiça. Além de que a migração tem origem na injustiça. Sejam as causas da perseguição e da violência, ou então de uma gritante desigualdade económica, elas não vêm ao caso. Para mais nós, no Ocidente somos ainda culpados dessa injustiça. Muitos imigrantes fogem de guerras que nós provocámos, ou de regimes que nós, por razões de pragmatismo, apoiamos. A desigualdade económica entre a Europa e a África é uma consequência da nossa exploração colonialista no passado e da nossa actual exploração capitalista exaustiva das fontes de recursos naturais. Com base nestas reflexões, a rejeição de imigrantes é injusta e torna-se até mesmo um crime abjecto se compreendermos que a nossa política restritiva provoca desse modo milhares de vítimas mortais, que se afogam no mar ou asfixiam em camiões, porque nós lhes fechámos todas as rotas regulares e seguras para a Europa. A única consideração em que nos podemos fundamentar para repelir imigrantes é que defendemos o nosso território como os animais. Mas os animais não sabem o que é a justiça. E nós vamos, aliás, perder essa luta, porque eles são muito mais; portanto, até mesmo por motivos práticos, essa estratégia não me parece elegível.

 

excerto de Grand Hotel Europa, de Ilja Leonard Pfeijffer (Livros do Brasil)

 

Relacionado: https://pt.euronews.com/my-europe/2025/07/18/taxas-de-natalidade-em-minimos-quais-os-paises-menos-ferteis-da-europa

 

O futuro que nos querem vender, de forma simplificada

Ou, a substituição do eixo horizontal pelo vertical

02.10.25

xxaçsdkjfhalksjdfhlaskjd.jpg

xxiakjsgfaljsdflasasdf.jpg

 

08.02.25

Caro Génio da Lâmpada Mágica,

Obrigado pelos três desejos concedidos, recompensa pela libertação inopinada da forçada clausura num poeirento baú.

Primeiro, quero uma rede social europeia pública, com código aberto, algoritmos transparentes e não viciantes (contraditório sugerido - se gostou deste video "quadrado amarelo", veja agora este "triângulo verde", com uma opinião diametralmente oposta), conteúdos verificados e todos os utilizadores identificados legalmente. Pode utilizar algum dinheiro do PRR na construção da dita, justificada pelo nosso Interesse Geoestratégico, a nossa Saúde Pública e Sanidade Mental, a defesa da nossa Democracia Liberal,  da Comunicação Social, da Lógica e da Verdade. Se não for pedir muito, coloque nela uma mira técnica entre a meia-noite e as sete da manhã. 

Segundo, a criação e difusão de um vírus com as seguintes características: omnisciente, penalizaria o seu hospedeiro humano com o aroma de carne podre típico da flor-cadáver (Amorphophallus titanum) e hemorróidas de tamanho mínimo duma couve-flor de dois quilos, ao serem detectados nele actos de corrupção (activa ou passiva).

Terceiro, a imersão total do consumidor na cadeia de produção, por uma semana. Alguns exemplos práticos de seguida. A adolescente fanática pelas cadeias de pronto-a-vestir seria brindada com uma estadia grátis no Bangladesh ou na Índia, trabalhando e vivendo nas condições espectaculares do típico trabalhador têxtil. O geek do telemóvel novo a cada seis meses poderia passar uma seminal temporada numa mina algures no Congo profundo, acompanhado calorosamente por alguma milícia militar. Use a sua imaginação para os fazer desfrutar dos adágios "Pimenta no cu dos outros, para mim é suminho de laranja" e "Longe da vista, longe do coração".

Grato pela atenção dispensada

Saúde e um Grande Bem-Haja

 

08.11.24

O século XX, ao longo do qual se tem afirmado uma confluência inquietante entre a procura da felicidade e a consumação da barbárie, foi talvez demasiado triunfalista sobre as possibilidades da humanidade. O resultado foi bem evidente. O "excesso de sentido", o primado do fio vermelho da história, deu origem aos episódios sangrentos que deixaram a humanidade exangue, quando os mais optimistas anunciavam não apenas o bem-estar ao virar da esquina, mas também a reconciliação definitiva das sociedades - num "fim da história", em que a "ideia" de Hegel foi sendo interpretada de formas diversas.

E agora? Não se pense que estamos vacinados contra a barbárie pelas guerras e pelas tragédias do século XX. Não estamos. Há novos big brothers, que Orwell talvez não tenha previsto, que espreitam donde menos se espera. Sarajevo constitui um sério alerta. Na Europa há sinais de fragmentação social, bem evidentes na Itália do Norte, mas também nos países de forte imigração, onde os conflitos sociais têm intensificado fenómenos de intolerância.

A esta tendência, que põe em causa a concepção de "contrato social" em vigor no último meio século nas sociedades ocidentais, acrescem os novos problemas da "sociedade da informação" - que obrigam a repensar algumas bases do Estado de direito, como a legalidade e a legitimidade. O culto do efémero junta-se ao risco da tirania instantânea do número através do que podemos designar como caricatura electrónica da política e da sociedade. Esta transforma-se num reality-show - no qual a manipulação e a exploração de sentimentos primários se tornam métodos comummente aceites e praticados. Pluralismo e "relativismo ético" aparecem confundidos, convicção e opinião surgem como sinónimos. E, assim, a sociedade passa a ter dificuldade em assumir a diversidade e o espírito crítico, preferindo um "pensamento débil", de fronteiras ténues e valores difusos. Em vez de se tornar factor de enriquecimento, a diversidade é substituída pela anomia. Deste modo, o risco da "tirania do número"  leva a esquecer que a política e a cidadania exigem princípios, regras, equilíbrio de poderes e influências, freios e contrapesos e tempo - e que a legitimidade obriga a que haja instâncias de mediação, aptas a representar as pessoas, os cidadãos e as comunidades, a regular os conflitos, a garantir a coesão social e a assegurar a salvaguarda do pluralismo, como condição de liberdade e de autonomia. Usando a expressão de Tocqueville, trata-se, afinal, de afirmar "uma sociedade que age por si própria e sobre si própria".

excerto de Educação ou Barbárie, de Guilherme d'Oliveira Martins (Gradiva, 1998)

 

Farto de utilizar apps americanas e chinesas?

Arquivo

Catálogo Biblioled

PressReader

Como usar

Catálogo BLX

Catálogo Geral das Bibliotecas Municipais do Porto

Catálogo de Bibliotecas do Município de Oeiras

No Thrones. No Crowns. No Kings.

Join the Resistance: Subscribe to The Borowitz Report Today.