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Leituras Improváveis

um registo digital

Leituras Improváveis

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14.07.25

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Esperar que o progresso tecnológico torne a economia mais verde seria tão ingénuo como pensar que comprar livros de dietética bastaria para perder peso.

excerto de Abrandar ou morrer - A economia do decrescimento, de Timothée Parrique (Zigurate)

 

01.07.25

26.05.25

A política é a grande generalizadora – disse-me o Leo – e a literatura a grande particularizadora, e entre ambas não se estabelece apenas uma relação inversa, mas também uma relação antagónica. Para a política a literatura é decadente, balofa, irrelevante, maçadora, opinosa, soturna, algo que não faz sentido e realmente não deveria existir. Porquê? Porque o impulso particularizante é a literatura. Como pode o senhor ser artista e renunciar a este cambiante? Como artista o cambiante é o seu mister. A sua tarefa não é simplificar. Mesmo que opte por escrever com a máxima simplicidade, à Hemingway, a tarefa continua a ser eliminar a cambiante, elucidar a complicação, implicar a contradição. Não fazer desaparecer a contradição, não negar a contradição, mas ver onde, dentro da contradição reside o ser humano atormentado. Permitir o caos, deixá-lo instalar-se. De outra forma está a fazer propaganda, se não a um partido político, a um movimento político, pelo menos à própria vida, à vida tal como ela poderia preferir ser publicitada. Durante os primeiros cinco ou seis anos da Revolução Russa os revolucionários gritavam “Amor livre, o amor será livre!”, mas quando chegaram ao poder não puderam permiti-lo. Sim, o que é o amor livre? O caos. E eles não queriam o caos. Não era para isso que tinham feito aquela gloriosa revolução. Queriam algo de cautelosamente disciplinado, organizado, contido e, se possível, cientificamente previsível. O amor livre conturba a organização. Não por ser ostensivamente a favor ou contra, ou mesmo subtilmente a favor ou contra. Conturba a organização, porque não é geral. A natureza intrínseca do particular é ser particular, e a natureza intrínseca da particularidade é não ser conforme. Generalização do sofrimento: temos o comunismo. Particularização do sofrimento: temos a literatura. Nessa polaridade reside o antagonismo. Manter vivo o particular num mundo simplificador e generalizador, é aí que começa a batalha. Não é preciso escrever para legitimar o comunismo, tal como não é preciso escrever para legitimar o capitalismo. O senhor está fora de ambos. Se é escritor, está tão desligado de um como de outro. Naturalmente vê as diferenças, claro que vê que esta merda é um bocadinho melhor do que a outra merda, ou que a outra merda é um bocadinho melhor do que esta merda. Porventura muito melhor. Mas vê a merda. Não é funcionário do Governo. Não é militante. Não é um crente fervoroso. É alguém que lida com o mundo e com o que acontece no mundo de uma maneira muito diferente. O militante traz uma fé, uma grande crença que mudará o mundo, e o artista traz um produto que não tem lugar nesse mundo. Que é inútil. O artista, o escritor sério, traz ao mundo algo que não se encontrava lá nem mesmo no princípio. Quando Deus fez esta treta em sete dias, as aves, os rios, os seres humanos, não teve dez minutos para a literatura. “Faça-se a literatura. Alguns gostarão dela, outros viverão obcecados por ela, quererão fazê-la…”. Não, não. Ele não disse isso. Se nessa altura tivesse perguntado a Deus: “Façam-se os canalizadores?” “Sim, porque eles vão ter casas a precisar de canalizadores.” “Façam-se os médicos?” “Sim. Porque eles vão ficar doentes e precisar de médicos para lhes receitarem comprimidos.” “A literatura? O que é isso? Para que serve? Onde é que isso encaixa? Por favor, eu estou a criar um universo, não uma universidade. Nada de literatura.”

excerto de Casei com um comunista, de Philip Roth (Dom Quixote)

 

07.03.25

 

Entendida correctamente, a razão é uma exigência: para cada coisa que acontece, encontrar as razões pelas quais é assim e não de outra forma. A razão permite-nos ir além da experiência que nos é dada e permite-nos pensar: isto podia ter sido diferente, porque é que é assim? O real é-nos dado, mas é preciso a razão para conceber o possível. Sem essa capacidade, não poderíamos começar a perguntar porque algo está errado, ou imaginar o que poderia ser melhor. Os filósofos chamam a isto o princípio da razão suficiente. É tão fundamental que dificilmente nos imaginamos a funcionar sem isso, e é provável que a tomemos por garantida, mas a exigência de encontrar razões é a base da investigação científica e da justiça social. Muitas coisas contam como razões, mas outras não: O meu pai contou-me. Ouvi-o algures. É o que é. A criança segue o princípio da razão suficiente quando pergunta "Porque está a chover?" e continua a perguntar até que o adulto lhe dê uma resposta satisfatória... ou lhe diga para parar de fazer perguntas. Mas, a menos que ela própria seja pobre e indigente e assuma que a condição é natural, a criança também se questionará da primeira vez que vir um sem-abrigo. Porque está ele a dormir no passeio? Porque não tem uma casa? Os adultos que querem realmente dar uma resposta devem passar da explicação à acção.

A razão tem, de facto, o poder de mudar a realidade, mas vê-la como uma mera forma de poder é ignorar a diferença entre violência e persusão, e entre persuasão e manipulação. É a diferença entre dizer que deves fazer isto, porque sou maior do que tu e que deves fazer isto porque é (a) correcto (b) bom para a comunidade (c) no teu melhor interesse (d) escolher a sua própria forma de justificação. Esta é uma das primeiras  distinções que ensinamos aos nossos filhos. Enquanto crescemos, aprendemos que a maior parte das acções é empreendida por mais do que uma razão, mas a sobredeterminação não prejudica a distinção entre razão e força bruta. Aqueles que a ignoram devem submeter-se àquilo a que Améry chamou a cura da banalidade, uma terapia para ultrapassar o medo de reconhecer as verdades banais que enquadram as nossas vidas. Porque a distinção entre razão e violência está na base da distinção entre democracia e fascismo, e qualquer esperaça de resistir ao deslizamento para o fascismo depende de nos lembramos da diferença.

excerto de A esquerda não é woke, de Susan Neiman (Editorial Presença)

 

25.11.24

08.11.24

O século XX, ao longo do qual se tem afirmado uma confluência inquietante entre a procura da felicidade e a consumação da barbárie, foi talvez demasiado triunfalista sobre as possibilidades da humanidade. O resultado foi bem evidente. O "excesso de sentido", o primado do fio vermelho da história, deu origem aos episódios sangrentos que deixaram a humanidade exangue, quando os mais optimistas anunciavam não apenas o bem-estar ao virar da esquina, mas também a reconciliação definitiva das sociedades - num "fim da história", em que a "ideia" de Hegel foi sendo interpretada de formas diversas.

E agora? Não se pense que estamos vacinados contra a barbárie pelas guerras e pelas tragédias do século XX. Não estamos. Há novos big brothers, que Orwell talvez não tenha previsto, que espreitam donde menos se espera. Sarajevo constitui um sério alerta. Na Europa há sinais de fragmentação social, bem evidentes na Itália do Norte, mas também nos países de forte imigração, onde os conflitos sociais têm intensificado fenómenos de intolerância.

A esta tendência, que põe em causa a concepção de "contrato social" em vigor no último meio século nas sociedades ocidentais, acrescem os novos problemas da "sociedade da informação" - que obrigam a repensar algumas bases do Estado de direito, como a legalidade e a legitimidade. O culto do efémero junta-se ao risco da tirania instantânea do número através do que podemos designar como caricatura electrónica da política e da sociedade. Esta transforma-se num reality-show - no qual a manipulação e a exploração de sentimentos primários se tornam métodos comummente aceites e praticados. Pluralismo e "relativismo ético" aparecem confundidos, convicção e opinião surgem como sinónimos. E, assim, a sociedade passa a ter dificuldade em assumir a diversidade e o espírito crítico, preferindo um "pensamento débil", de fronteiras ténues e valores difusos. Em vez de se tornar factor de enriquecimento, a diversidade é substituída pela anomia. Deste modo, o risco da "tirania do número"  leva a esquecer que a política e a cidadania exigem princípios, regras, equilíbrio de poderes e influências, freios e contrapesos e tempo - e que a legitimidade obriga a que haja instâncias de mediação, aptas a representar as pessoas, os cidadãos e as comunidades, a regular os conflitos, a garantir a coesão social e a assegurar a salvaguarda do pluralismo, como condição de liberdade e de autonomia. Usando a expressão de Tocqueville, trata-se, afinal, de afirmar "uma sociedade que age por si própria e sobre si própria".

excerto de Educação ou Barbárie, de Guilherme d'Oliveira Martins (Gradiva, 1998)

 

07.06.24

 

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