08.12.25

A religião talvez nos faça amar Deus mas nada é mais forte que ela para nos fazer detestar o homem e odiar a humanidade.
excerto de 2084. O fim do mundo, de Boualem Sansal
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08.12.25

A religião talvez nos faça amar Deus mas nada é mais forte que ela para nos fazer detestar o homem e odiar a humanidade.
excerto de 2084. O fim do mundo, de Boualem Sansal
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04.12.25

- Pum, estás morto! - dizíamos nós. - Pum, matei-te - dizíamos sempre isto. Brincávamos às guerras. Muitos em grupo, ou dois a dois, ou nos nossos sonhos solitários, era sempre guerra, sempre morte.
- Não brinquem dessa maneira - diziam os pais. - Podem ficar assim para sempre.
Grande perigo! O que nós mais queriamos era mesmo ser assim. Não precisávamos de brinquedos bélicos. Qualquer pau se transformava numa arma nas nossas mãos, e as pinhas eram bombas. Não me lembro de ter feito uma única vez chichi em criança, fosse ao ar livre ou na retrete, sem escolher um alvo, apontar para ele e bombardear. Aos cinco anos já era um perito em bombardeamento.
- Se todos brincarem assim - dizia a minha mãe - vai haver uma guerra.
E tinha razão. Houve mesmo.
excerto de Uma história dos bombardeamentos, de Sven Lindqvist (Antígona)
02.12.25

Entretanto, o juiz levantara-se para receber o seu antigo professor.
- Que prazer revê-lo passados tantos anos!
- Tantos mesmo. E pesam-me - respondeu o professor.
- Não diga isso. Não mudou nada.
- Mas você, sim - disse o professor, com a sua habitual franqueza.
- Este maldito trabalho... Mas porque me trata por você?
- Como dantes - disse o professor.
- Mas agora...
- Não.
- Mas lembra-se de mim?
- Claro que me lembro.
- Posso perguntar-lhe uma coisa?... Depois farei outras perguntas, de natureza diferente... Nas composições de italiano, o professor dava-me sempre um dois, porque eu copiava. Mas uma vez deu-me um três: porquê?
- Porque copiou de um autor mais inteligente.
O juiz desatou a rir.
- Sempre fui mau em Italiano. Mas, como vê, não foi um grande problema. Cheguei até aqui: procurador da República...
- Italiano não tem que ver com o italiano, tem que ver com a capacidade de pensar - disse o professor. - Com menos italiano, talvez tivesse chegado ainda mais longe.
A piada foi dura. O juiz empalideceu. E deu início a um duro interrogatório.
excerto de Uma história simples, de Leonardo Sciascia (Editorial Presença)
01.12.25

Christmas is a time of seasonal cheer, family get-togethers, holiday parties, and … gift giving. Lots and lots—and lots—of gift giving. It’s hard to imagine any Christmas without this time-honored custom. But let’s stop to consider the gifts we receive—the rooster sweater from Grandma or the singing fish from Uncle Mike. How many of us get gifts we like? How many of us give gifts not knowing what recipients want? Did your cousin really look excited about that jumping alarm clock? Lively and informed, Scroogenomics illustrates how our consumer spending generates vast amounts of economic waste - to the shocking tune of eighty-five billion dollars each winter. Economist Joel Waldfogel provides solid explanations to show us why it’s time to stop the madness and think twice before buying gifts for the holidays.
When we buy for ourselves, every dollar we spend produces at least a dollar in satisfaction, because we shop carefully and purchase items that are worth more than they cost. Gift giving is different. We make less-informed choices, max out on credit to buy gifts worth less than the money spent, and leave recipients less than satisfied, creating what Waldfogel calls “deadweight loss.” Waldfogel indicates that this waste isn’t confined to Americans - most major economies share in this orgy of wealth destruction. While recognizing the difficulties of altering current trends, Waldfogel offers viable gift-giving alternatives.
By reprioritizing our gift-giving habits, Scroogenomics* proves that we can still maintain the economy without gouging our wallets, and reclaim the true spirit of the holiday season.
* Scrooge é o personagem principal da história Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens.
excerpt from Scroogenomics: Why You Shouldn't Buy Presents for the Holidays, by Joel Waldfogel (Princeton University Press)
27.11.25

A História mostra que não existe uma forma natural de as partes do sistema mundial se organizarem. Nem o sistema possui qualquer propensão inata para se conservar estático, nem as partes para pernanecerem num determinado padrão. Muitas vezes no passado o pêndulo do poder ficou exactamente equilibrado entre dois polos no sistema e nenhuma necessidade histórica inerente ditava que alguém conquistasse uma posição hegemónica. O facto de a Europa se ter destacado no século XVI, substituindo o Médio Oriente como o cerne do sistema mundial, não pode ser usado para defender que apenas a cultura e as instituições europeias poderiam ter sucesso. De facto, como argumenta um historiador, a Europa nem sequer teve de inventar o sistema, uma vez que o trabalho de base essencial já estava disponível no século XIII, quando os europeus se encontravam ainda a viver numa remota periferia. Bastava mudar as regras e reorganizar as peças. Em última análise, o facto de Lisboa, Amesterdão e Londres se terem sucessivamente tornado a pedra angular do sistema foi um facto contingente. Poderia facilmente ter sido o Cairo, Tabriz ou Hangchou.
excerto de O despertar da Euroásia - Em busca da Nova Ordem Mundial, de Bruno Maçães (Temas & Debates)
25.11.25

Khashdrahr stopped translating and frowned perplexedly. "Please, this average man, there is no equivalent in our language, I'm afraid".
"You know", said Halyard, "the ordinary man, like, well, anybody - these men working back on the bridge, the little man, not brilliant but good-hearted, plain, ordinary, everyday kind of person".
Khashdrahr translated.
"Aha", said the Shah, nodding, "Takaru".
"What did he say?"
"Takaru", said Khashdrahr. "Slave".
"No Takaru", said Halyard, speaking directly to the Shah. "Citizen".
He grinned happily, "Takaru-Citizen, Citizen-Takaru".
"No Takaru!", said Halyard.
Khashdrahr shrugged. "In the Shah's land there are only the Elite and the Takaru".
excerpt from Player Piano, by Kurt Vonnegut, Jr
24.11.25

Os seres humanos são seres sociais e os seus comportamentos não acontecem de forma isolada. Pelo contrário, ocorrem normalmente em contextos em que outras pessoas os podem observar, julgar e relatar a quem não estava presente. O modo como estes observadores julgam as acções de uma pessoa, pode condicionar o que ela decide fazer. A simples previsão de que os outros podem desaprovar os nossos actos é, muitas vezes, suficiente para pensarmos duas vezes acerca deles.
Com base nesta ideia, este livro tentou centrar a discussão acerca dos motivos que explicam as comportamentos políticos das pessoas não em torno das suas ideias políticas, mas antes das normas sociais que definem o leque de condutas e ideias considerados aceitáveis ou desejáveis. Dado que o seu desrespeito pode ter repercussões sociais, estas regras informais podem fazer com que os indivíduos não expressem as ideias politicas que têm em privado. O exemplo que analisei nesta obra foi o das ideias e comportamentos associados à direita radical. Havendo pressão social contra a manifestação pública de apoio a tal ideologia, muitos dos seus simpatizantes coibem-se de o mostrar.
Partindo desta ideia, a teoria da normalizaçãopropõe que o avanço da direita radical em tantas democracias ocidentais deve ser entendido, pelo menos em parte, como um processo de mudança nas normas sociais vigentes. Muitas pessoas que já tinham ideias de direita radical, mas não estavam dispostas a expressá-las, estão a sentir-se cada vez mais à-vontade em agir com base nelas. Este aspecto é essencial porque permite explicar como é que a direita radical (e os comportamentos a ela associados) podem, por vezes, registar um crescimento tão rápido. Se estas acções são realizadas por pessoas que já tinham ideias de direita radical em privado, o seu número pode aumentar muito depressa, porque tal não implica que tenham realmente mudado o que pensam o que seria um processo muito mais lento. Tudo o que quer dizer é que estas pessoas se sentem, agora, mais confortáveis para manifestarem o que já anteriormente pensavam.
https://pod.link/1292782109/episode/291c66496fa044ce8622f62cb8ed3735