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Leituras Improváveis

um registo digital

Leituras Improváveis

um registo digital

07.10.25

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- Acha que as pessoas têm razão em sentirem ameaçadas? – perguntei eu.

- Essa é pergunta errada – disse Patelski. – Faz tanto sentido como perguntar se as pessoas têm razão em se sentirem ameaçadas pela água. A água vem. Do mar, das montanhas ou do céu. A água é impossível de conter. Se deixarmos a água correr livremente, o desastre é potencial, mas se a conseguirmos canalizar e a deixarmos fluir controladamente nos nossos campos, ela é uma fonte de vida e riqueza. A migração é igualmente impossível de conter. Quem pensa assim não conhece a história da humanidade. Desde que nos conseguimos pôr em cima de duas pernas, começamos a andar. A partir do nosso berço em África, povoamos os continentes. A migração é a essência do ser humano. Quem pensa poder parar a migração actual vinda de África não conhece o desespero dos emigrantes. Quem está disposto a arriscar a vida não se deixa deter por nada. Sendo assim, perguntar se isso forma uma ameaça é improdutivo. Portanto, se os imigrantes continuam a vir, é mais proveitoso começar a pensar o mais rapidamente possível sobre a questão de como canalizar essas correntes e utilizá-las de uma maneira que seja para nossa vantagem. Se nós, por pânico ou por inadequado sentimento de superioridade, nos recusamos a empregar inteligentemente os afluxos de imigrantes a favor da nossa sociedade, seremos invadidos de uma maneira que representa um desastre potencial. Se realmente o fizermos, o problema da migração torna-se uma solução. A Europa está a envelhecer. Todas as manhãs vejo a prova mais convincente disso ao espelho. Com o nosso actual perfil demográfico, é impossível manter a nossa saúde e as pensões ao mesmo nível. Sem a migração, é difícil imaginar um futuro para a Europa.

- Isso não leva à destruição da nossa cultura?

- Cada cultura é um cocktail – disse Patelski. – E a composição da mistura está continuamente sujeita a mudanças. Isso caracteriza uma cultura viva. Quem quer ver uma cultura que se petrificou numa imobilidade estática e princípios cinzelados em mármore pode visitar os templos gregos e romanos. O que actualmente sobrevive dessas culturas extintas é precisamente aquilo que se deixou diluir, contaminar e corromper por dois milénios de influências estranhas. O presente medo da islamização de Europa é idêntico ao de um patrício romano no séc. IV pela cristianização do império. Eu também poderia citar Horácio: “A Grécia subjugada subjugou o seu feroz conquistador”. Entendo o que quer dizer. O confronto entre duas culturas não leva à substituição de uma por outra, mas a uma nova cultura, em que ambas, magicamente, podem ser declaradas vencedoras. Até mesmo os conquistadores espanhóis, armados até aos dentes, não conseguiram destruir totalmente, apesar de tentativas furiosas, a cultura original dos habitantes da América do Sul. Ela volta alguns séculos mais tarde na sua língua, nos livros de Garcia Marquez, para contagiar a sua própria cultura e mudar o seu modo de pensar. Se a Europa for islamizada o Islão lá há-de mudar tanto como a Europa. Mais de perguntar se isto pode ser travado, muito provavelmente pode ser visto a nível mundial como um progresso.

- Esta opinião poderia ser escarnecida por muitos como uma forma extrema de relativismo cultural – notei.

- Chame-lhe realismo cultural – disse Patelski. - Neste tipo de questões é útil não desconhecer completamente a História. A alternativa ao relativismo cultural é o absolutismo cultural, em que uma cultura é considerada superior a todas as outras. Esta ideia esbarra, porém, em sentido filosófico, no dado histórico de que toda a gente, em todas os séculos, em todas as partes do mundo sempre considerou a sua cultura superior a todas as outras.

- Pode inventar-se alguma argumentação filosófica que justifique a rejeição de imigrantes? - perguntei.

- Se quiser chamar filósofo a Platão - respondeu - , é-se obrigado a concluir que faz parte das possibilidades, porque ele dá nas suas Leis a responsabilidade ao governo para, através de emigração e imigração, manter o número ideal de habitantes na área que governa. Porém, isto não é um raciocínio ético, mas uma consideração pragmática centrada no bem-estar do próprio grupo. De resto, tendo em conta o envelhecimento da Europa, com base no critério de Platão, devia tomar-se a decisão de permitir a imigração e estimulá-la. No entanto, assim que se aborda eticamente a questão de migração, esta torna-se terrivelmente banal. Todas as ideias de justiça partem do princípio de igualdade entre pessoas. Como a ética é universal e igualitária, o princípio das fronteiras abertas torna-se implícito pela própria ética. Por nós todos sermos migrantes, e nenhum de nós poder reivindicar uma ascendência despontada nos torrões de terra onde estamos, não há um argumento com base no qual nós possamos negar aos outros o direito à migração. Há muito a favor de considerarmos a migração um direito fundamental, porque, sem o direito a migrar, toda a gente ficaria a vida inteira condenada ao destino que lhe calhou na lotaria dos lugares de nascença, e isso nunca poderia estar em conformidade com um único princípio de justiça. Além de que a migração tem origem na injustiça. Sejam as causas da perseguição e da violência, ou então de uma gritante desigualdade económica, elas não vêm ao caso. Para mais nós, no Ocidente somos ainda culpados dessa injustiça. Muitos imigrantes fogem de guerras que nós provocámos, ou de regimes que nós, por razões de pragmatismo, apoiamos. A desigualdade económica entre a Europa e a África é uma consequência da nossa exploração colonialista no passado e da nossa actual exploração capitalista exaustiva das fontes de recursos naturais. Com base nestas reflexões, a rejeição de imigrantes é injusta e torna-se até mesmo um crime abjecto se compreendermos que a nossa política restritiva provoca desse modo milhares de vítimas mortais, que se afogam no mar ou asfixiam em camiões, porque nós lhes fechámos todas as rotas regulares e seguras para a Europa. A única consideração em que nos podemos fundamentar para repelir imigrantes é que defendemos o nosso território como os animais. Mas os animais não sabem o que é a justiça. E nós vamos, aliás, perder essa luta, porque eles são muito mais; portanto, até mesmo por motivos práticos, essa estratégia não me parece elegível.

 

excerto de Grand Hotel Europa, de Ilja Leonard Pfeijffer (Livros do Brasil)

 

Relacionado: https://pt.euronews.com/my-europe/2025/07/18/taxas-de-natalidade-em-minimos-quais-os-paises-menos-ferteis-da-europa

 

30.04.24

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Quando a expansão económica do pós-guerra terminou e o desemprego aumentou, na década de 1980, a abertura para com os refugiados diminuiu. Tratou-se de uma tendência no contexto mais amplo da política de migrações. Por causa da primeira crise petrolífera, a Europa Ocidental já tinha começado a restringir severamente a migração de mão-de-obra de diversos países das suas vizinhanças mais próximas - a Turquia, o Médio Oriente e o Norte de África. Os EUA, numa manobra paralela, cortaram a migração de mão-de-obra do México, da América Central e das Caraíbas. Não só a mão-de-obra migrante, mas também, com algum atraso, os refugiados passaram a ser encarados como um fardo. Por vezes mais cedo, por vezes mais tarde (dependendo do país), as suas motivações tornaram-se suspeitas. O estado de espírito anti-imigração deu origem a termos como «pseudorrequerentes de asilo», «refugiados económicos» e, mais recentemente, «falso refugiado».

As revoluções liberais de 1989 deram outro ímpeto ao humanitarismo. O ostensivo «triunfo dos direitos humanos» da nova era resultou numa expansão dos direitos dos refugiados. Pela primeira vez, o Ocidente acolheu vítimas de guerra sem examinar o caso de cada indivíduo e foram acrescentados à legislação de asilo novos fundamentos para perseguição, como, por exemplo, a criminalidade dos gangues e a violência com origem em guerras civis. No entanto, este alargamento dos fundamentos reconhecidos como legítimos para a fuga não foi acompanhado por uma disponibilidade correspondente para admitir refugiados de maneira permanente. Vários países europeus, em particular a Alemanha recém-unificada, apertaram as leis de asilo no início da década de 1990. Nos EUA, o número de realojamentos não subiu, de todo, sob a liderança de Bill Clinton (comparado com os números dos seus predecessores) e Barack Obama também não agiu como um salvador das pessoas deslocadas do mundo (um facto que não evitou que Trump expusesse publicamente os democratas como instigadores de fugas). Durante muito tempo, a discrepancia entre o humanitarismo, em abstrato, e a real disponibilidade para admitir refugiados não era evidente, porque o número de refugiados internacionais, à escala mundial, diminuiu de quase quinze milhões, em 1989, para oito milhões e meio (sem contar com as pessoas internamente deslocadas) em 2005. Além disso, quase todos os refugiados de zonas de conflito do Terceiro Mundo ficaram onde estavam; só alguns chegaram à Europa e aos EUA.

Depois, na crise dos refugiados de 2015, os limites do humanitarismo vieram, claramente, à tona. O espírito de prestabilidade que originalmente prevalecia nalguns países europeus deu lugar a um crescente ceticismo, à medida que os estrangeiros recebidos desencadeavam, cada vez mais, o medo e não a compaixão. Isso estava relacionado com um dos motivos imediatos para a fuga; nomeadamente, a disseminação do islamismo radical nas zonas de guerra civil do Médio Oriente. A fuga e o terrorismo eram metidos no mesmo saco, especialmente nas redes sociais. Essa ligação não é inteiramente nova; mesmo em épocas anteriores, houve casos de refugiados que foram suspeitos de ser bolcheviques e de judeus que fugiam do Terceiro Reich e que foram suspeitos de ser agentes alemães. Os estereótipos negativos refletem, também, o medo primitivo face aos estranhos, descrito pelo sociólogo Georg Simmel. Até há pouco tempo, a prosperidade crescente das sociedades ocidentais facilitava a expressão de solidariedade para com os oprimidos. Hoje em dia, por outro lado, o surto de refugiados empobrecidos e de mão-de-obra migrante já desencadeou receios de que a prosperidade nacional possa ter de ser partilhada, pelo menos em certa medida. É bem sabido que a atual ordem mundial assenta numa divisão de poder, riqueza e recursos muito desigual. Quando chegam os mais pobres dos pobres, quer sejam do Médio Oriente ou da América Central, a miséria do mundo é revelada à porta das sociedades ocidentais (caso não tenha já um pé na porta). Essa é, provavelmente, a razão mais profunda por detrás das reações defensivas contra os refugiados e que subjaz às atitudes temerosas e hostis que temos testemunhado ao longo de toda a história da humanidade. Aquilo que é novo é a falta de vergonha com que os nacionalistas de direita têm explorado esses medos, usando-os nas suas campanhas eleitorais.

excerto de Os intrusos, Refugiados na Europa desde 1492, de Phillip Ther (Edições 70)

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