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A propaganda é filha da democracia. A experiência totalitária duma propaganda empurrada ao seu paroxismo, ao conferir a esta palavra uma conotação pejorativa, há muito tempo mascarou esta realidade: é dentro da democracia ateniense e na républica romana que surgiu a primeira forma de propaganda - na qualidade de "esforço organizado para propagar uma crença ou uma doutrina particular" - , é a Revolução Francesa que demarcou a propaganda política moderna, e são as democracias em guerra entre 1914 e 1918 que inventam a propaganda de massas, retomada de seguida pelos regimes autoritários e totalitários. A propaganda não é portanto própria dos regimes autoritários, e ainda menos o reverso da democracia. Não somente ela nasceu no seio dos regimes democráticos, como era percebida de forma positiva. A palavra "propaganda" não tem conotação pejorativa nas democracias liberais, antes dos anos 1970, uma vez que desapareceu progressivamente dos organigramas politícos e sindicais em favor de termos mais neutros, a começar por "comunicação". O fim da Guerra Fria e aparente vitória das democracias liberais assinalaram, ao mesmo tempo que o fim das ideologias, a relegação dentro da opinião pública da noção de propaganda como propriedade específica de regimes autoritários. Com o fim da URSS, teríamos deste modo largado a era da propaganda para entrar na da comunicação, no momento em que se perfilavam as "auto-estrada da informação" na Web, que traziam a promessa de acesso individual a informação fiável, ao exercício do seu livre arbítrio, e a uma total liberdade de opinião, ao abrigo de todas as formas de manipulação. Esta ideia segundo a qual a propaganda seria própria de regimes autoritários é hoje em dia ainda dominante para caracterizar o renascimento da propaganda no mundo contemporâneo, depois do Brexit e da eleição de Donald Trump. O desenvolvimento da propaganda russa, por exemplo, é lido como um sinal de resvalamento autoritário do regime e não como uma das manifestações da revolução tecnológica, que permite hoje e a menor custo conduzir operações de desestabilização a grande escala. Este livro pretende demonstrar não apenas que a propaganda e a manipulação de massas não são exclusivas dos regimes autoritários mas que o seu progresso segue o das ciências e da tecnologia. A história da propaganda é aquela duma ciência aplicada que se nutre à vez dos progressos do sistema tecnológico, que dota os propagandistas de ferramentas de comunicação de massas, e dos das ciências humanas e cognitivas, que oferecem as chaves da persuasão de cada indivíduo. Por isso, aquilo a que assistimos hoje em dia, na era digital, não é apenas um simples retorno da propaganda, mas a ascensão de um novo tipo de propaganda, ao mesmo tempo massiva, individualizada e de uma eficácia temível.
excerto de Propagande, la manipulation de masse dans le monde contemporain, de David Colon