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Leituras Improváveis

um registo digital

Leituras Improváveis

um registo digital

08.11.25

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Os Zimpsonoviches voam para Nova Yorque. Zimpsonovich é entrevistado por um funcionário do departamento de imigração:

'Diga-me, qual é a situação política no seu país?' pergunta o funcionário.

'Bom, não me posso queixar', diz Zimpsonovich.

'Certo', diz o funcionário, confuso, 'qual é a situação dos direitos humanos no seu país?' pergunta o funcionário.

'Bem, para dizer a verdade, eu não me posso queixar', diz Zimpsonovich.

'Ok, e como é a situação económica?'

'Na realidade, não me posso queixar', responde novamente Zimpsonovich.

'Bem', diz o exasperado funcionário, 'porque deseja então sair da  União Soviética?'

'Não me posso queixar', diz Zimpsonovich.

 

15.10.25

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O medo perante a nova realidade que se nos abriu, para a qual não estamos preparados e diante da qual somos impotentes, e por isso a melhor defesa, segundo nos parece, é criar pequenos cubos não do passado, mas dos nossos mitos. Fomos lançados da nossa própria história para o tempo comum. A princípio parecia-nos que sería fácil inserir-nos nesse mundo. A consciência das massas tinha esperanças, teremos as mesmas montras, os mesmos armazéns. Os intelectuais pensavam que assim, de passagem, ficariam ao nível da elite mundial. Mas verificou-se que nada era assim tão fácil. Que esse é um enorme trabalho, que exige pessoas livres, que nós não éramos, e pensamento livre, que não tínhamos. E não caminhámos para o mundo, antes nos afastámos dele.

excerto de O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksievitch (Porto Editora)

26.05.25

A política é a grande generalizadora – disse-me o Leo – e a literatura a grande particularizadora, e entre ambas não se estabelece apenas uma relação inversa, mas também uma relação antagónica. Para a política a literatura é decadente, balofa, irrelevante, maçadora, opinosa, soturna, algo que não faz sentido e realmente não deveria existir. Porquê? Porque o impulso particularizante é a literatura. Como pode o senhor ser artista e renunciar a este cambiante? Como artista o cambiante é o seu mister. A sua tarefa não é simplificar. Mesmo que opte por escrever com a máxima simplicidade, à Hemingway, a tarefa continua a ser eliminar a cambiante, elucidar a complicação, implicar a contradição. Não fazer desaparecer a contradição, não negar a contradição, mas ver onde, dentro da contradição reside o ser humano atormentado. Permitir o caos, deixá-lo instalar-se. De outra forma está a fazer propaganda, se não a um partido político, a um movimento político, pelo menos à própria vida, à vida tal como ela poderia preferir ser publicitada. Durante os primeiros cinco ou seis anos da Revolução Russa os revolucionários gritavam “Amor livre, o amor será livre!”, mas quando chegaram ao poder não puderam permiti-lo. Sim, o que é o amor livre? O caos. E eles não queriam o caos. Não era para isso que tinham feito aquela gloriosa revolução. Queriam algo de cautelosamente disciplinado, organizado, contido e, se possível, cientificamente previsível. O amor livre conturba a organização. Não por ser ostensivamente a favor ou contra, ou mesmo subtilmente a favor ou contra. Conturba a organização, porque não é geral. A natureza intrínseca do particular é ser particular, e a natureza intrínseca da particularidade é não ser conforme. Generalização do sofrimento: temos o comunismo. Particularização do sofrimento: temos a literatura. Nessa polaridade reside o antagonismo. Manter vivo o particular num mundo simplificador e generalizador, é aí que começa a batalha. Não é preciso escrever para legitimar o comunismo, tal como não é preciso escrever para legitimar o capitalismo. O senhor está fora de ambos. Se é escritor, está tão desligado de um como de outro. Naturalmente vê as diferenças, claro que vê que esta merda é um bocadinho melhor do que a outra merda, ou que a outra merda é um bocadinho melhor do que esta merda. Porventura muito melhor. Mas vê a merda. Não é funcionário do Governo. Não é militante. Não é um crente fervoroso. É alguém que lida com o mundo e com o que acontece no mundo de uma maneira muito diferente. O militante traz uma fé, uma grande crença que mudará o mundo, e o artista traz um produto que não tem lugar nesse mundo. Que é inútil. O artista, o escritor sério, traz ao mundo algo que não se encontrava lá nem mesmo no princípio. Quando Deus fez esta treta em sete dias, as aves, os rios, os seres humanos, não teve dez minutos para a literatura. “Faça-se a literatura. Alguns gostarão dela, outros viverão obcecados por ela, quererão fazê-la…”. Não, não. Ele não disse isso. Se nessa altura tivesse perguntado a Deus: “Façam-se os canalizadores?” “Sim, porque eles vão ter casas a precisar de canalizadores.” “Façam-se os médicos?” “Sim. Porque eles vão ficar doentes e precisar de médicos para lhes receitarem comprimidos.” “A literatura? O que é isso? Para que serve? Onde é que isso encaixa? Por favor, eu estou a criar um universo, não uma universidade. Nada de literatura.”

excerto de Casei com um comunista, de Philip Roth (Dom Quixote)

 

11.04.24

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A história do comunismo deverá ter-nos ensinado duas coisas. A primeira lição, agora extraída por muitos autores, é o ponto de destrutibilidade a que pode chegar o pensamento utópico dogmático. A segunda lição, muito mais negligenciada hoje em dia, é o perigo das desigualdades acentuadas e das injustiças notórias, pois elas podem tornar muito fascinantes essas políticas utópicas. Desde 1989 que os poderes dominantes não aprendem nenhuma destas lições. Ao reagirem vincadamente contra as utopias comunistas, liberais dogmáticos messiânicos procuram exportar o seu sistema por todo o planeta, por vezes recorrendo à força. Talvez só agora, castigados pelas crises de 2008, possamos finalmente aprender com a história do comunismo. Só assim poderemos ser poupados a mais um acto sangrento na tragédia de Prometeu.

excerto de A bandeira vermelha, de David Priestland

 

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