07.03.25
Entendida correctamente, a razão é uma exigência: para cada coisa que acontece, encontrar as razões pelas quais é assim e não de outra forma. A razão permite-nos ir além da experiência que nos é dada e permite-nos pensar: isto podia ter sido diferente, porque é que é assim? O real é-nos dado, mas é preciso a razão para conceber o possível. Sem essa capacidade, não poderíamos começar a perguntar porque algo está errado, ou imaginar o que poderia ser melhor. Os filósofos chamam a isto o princípio da razão suficiente. É tão fundamental que dificilmente nos imaginamos a funcionar sem isso, e é provável que a tomemos por garantida, mas a exigência de encontrar razões é a base da investigação científica e da justiça social. Muitas coisas contam como razões, mas outras não: O meu pai contou-me. Ouvi-o algures. É o que é. A criança segue o princípio da razão suficiente quando pergunta "Porque está a chover?" e continua a perguntar até que o adulto lhe dê uma resposta satisfatória... ou lhe diga para parar de fazer perguntas. Mas, a menos que ela própria seja pobre e indigente e assuma que a condição é natural, a criança também se questionará da primeira vez que vir um sem-abrigo. Porque está ele a dormir no passeio? Porque não tem uma casa? Os adultos que querem realmente dar uma resposta devem passar da explicação à acção.
A razão tem, de facto, o poder de mudar a realidade, mas vê-la como uma mera forma de poder é ignorar a diferença entre violência e persusão, e entre persuasão e manipulação. É a diferença entre dizer que deves fazer isto, porque sou maior do que tu e que deves fazer isto porque é (a) correcto (b) bom para a comunidade (c) no teu melhor interesse (d) escolher a sua própria forma de justificação. Esta é uma das primeiras distinções que ensinamos aos nossos filhos. Enquanto crescemos, aprendemos que a maior parte das acções é empreendida por mais do que uma razão, mas a sobredeterminação não prejudica a distinção entre razão e força bruta. Aqueles que a ignoram devem submeter-se àquilo a que Améry chamou a cura da banalidade, uma terapia para ultrapassar o medo de reconhecer as verdades banais que enquadram as nossas vidas. Porque a distinção entre razão e violência está na base da distinção entre democracia e fascismo, e qualquer esperaça de resistir ao deslizamento para o fascismo depende de nos lembramos da diferença.
excerto de A esquerda não é woke, de Susan Neiman (Editorial Presença)








