Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Leituras Improváveis

um registo digital

Leituras Improváveis

um registo digital

14.11.25

giles_1.jpeg

Na época do capitalismo artístico avançado, os indivíduos, incluindo os que fazem parte das classes mais altas, consomem regularmente e em altas doses bens culturais que eles consideram regressivos e angustiantes. Agora, o que mais vemos não é sempre o que nos inspira respeito. A explicação do fenómeno é dada pelos próprios consumidores que, sobre estes programas declaram escolhê-los para descomprimir, relaxar depois de um dia de trabalho "stressante" e extenuante. O divertimento, a descontração, o descanso tornaram-se nas grandes molas de consumo cultural; o sucesso das comédias, na forma ecumenicamente mais popular, mostra-o bem. A cultura clássica tinha a ambição de formar, educar, elevar o homem: agora pedimos à cultura exactamente o contrário, que nos "esvazie a cabeça".

 

excerto de O capitalismo estético na era da globalização, de Gilles Lipovetsky (Edições 70)

21.01.25

648x415.png

10.01.25

Ernest Hemingway costumava elogiar Mark Twain (1835-1910) alegando que este romancista, humorista e repórter ensinara os compatriotas a escrever. William Faulkner chamou-lhe o «pai da literatura norte-americana».
 
Mas o autor de obras que deram projecção universal ao seu estado de origem, o Missouri, perdeu a aura de prestígio granjeada durante várias gerações. Agora, acusam-no de usar vocabulário racista nos seus livros, que reflectem um mundo anterior à Guerra da Secessão nos EUA. E querem proibi-los, por linguagem indecente. Ou, em alternativa, reescrevê-los, expurgando-os de vocabulário considerado ofensivo.
 
A censura mais descarada, sem disfarce, ocorreu em Janeiro de 2011: o académico Alan Gribben - professor da Universidade de Montgomery, no Alabama, e especializado na obra de Twain - anunciou a publicação iminente de edições «purificadas» dos clássicos Tom Sawyer (1876) e As Aventuras de Huckleberry Finn (1884). Só neste último, o termo nigger (equivalente semântico a "preto"), utilizado 219 vezes no romance, deu lugar a slave (escravo). Como se fossem sinónimos. A palavra «índios» foi expurgada, entre outras.
 
Justificação para esta profilaxia literária? Tornar o livro «mais adequado às salas de aula», em resposta a reiterados apelos de professores do ensino secundário. E também para melhor exprimir as ideias de Mark Twain no século XXI. Daí esta iniciativa, com a chancela da editora NewSouth Books.
 
Que justificou a decisão por motivos de ordem prática: «Diminui a possiblidade de os livros serem vetados nas listas escolares.»
 
Imitando a manha dos políticos, Gribben fez um rasgado elogio ao romancista antes de justificar este atentado à integridade da sua prosa: «Podemos aplaudir a capacidade de Twain no registo da fala de uma determinada região numa época histórica específica, mas os abusivos insultos raciais causam repugnância aos leitores dos nossos dias.»
 
As críticas não tardaram, «Aqueles que censuram conhecem mal literatura americana. Até onde chegaremos? Passaremos também a eliminar letras de musicais como Show Boat? O hip hop, tal como o conhecemos chegará ao fim. Qualquer canção ficará sujeita aquilo que os patrulheiros de palavras decidirem, reagiu o poeta e romancista Ishmael Reed no Wall Street Journal.
 
Em registo mais irónico pronunciou-se Alexandra Petri, colunista do Washington Post: «Essa palavra [nigger] é horrorosa, mas crucial para o romance. Removê-la seria como mudar de 1984 para 2084 o título do romance de Orwell por não reflectir como era agradável a vida durante a administração Reagan.»
 
Outros autores foram lembrando que Huckleberry Finn é um libelo contra o racismo. Saído da pena de um homem que conhecia bem esta brutal realidade, pois cresceu rodeado de escravos: o tio era proprietário de uma pequena plantação.
 
Tudo isto aconteceu quando ainda se assinalava o centenário da morte de Samuel Langhorne Clemens, nome de baptismo do escritor, também célebre pelos seus aforismos e trocadilhos sarcásticos. Eis um deles: «A notícia da minha morte é manifestamente exagerada.»
 
Infelizmente, a notícia da mutilação das suas obras não peca por exagero. É uma lamentável verdade.

excerto de Tudo é tabu, de Pedro Correia (Guerra & Paz)

23.02.24

damasio.jpeg

"Hoje, há a substituição da educação, do tempo pessoal e de reflexão, pela diversão e entretenimento. Há o confronto constante com a ação, por vezes violenta, como substituta da reflexão e da calma. Temos uma imagem permanente de violência e de ação, com a exibição de conflitos e incompatibilidades, em vez de propostas de soluções. Atualmente, há a exaustão frente ao conflito e a vulgarização do mesmo. É muito difícil as pessoas terem tempo para pensar soluções alternativas quando tudo aquilo que lhes é oferecido é violência e confronto."

 

.....

 

"Estaremos a sobrestimar a Inteligência Artificial?

O problema da Inteligência Artificial (IA) reveste-se de aspetos curiosos porque, de facto, neste momento há uma IA que vem da nossa inteligência natural. A IA é inventada por seres humanos, mas neste momento está a assumir características muito particulares que se prendem em especial com o extraordinário êxito de certos modelos, os denominados large language models, que surgiram recentemente e que têm vindo a desenvolver-se ao longo dos últimos anos. Transformaram-se em coisas muito populares, através de sistemas como o ChatGPT, e que permitem, de uma forma muito poderosa, inventar histórias, responder a perguntas variadas e gerar imagens. Funcionam tanto verbalmente como do ponto de vista imagético e visual. Em si mesmo, carregam um problema, o de dar a impressão de que os sistemas artificiais são capazes de fazer todas estas coisas de uma forma única, nunca utilizada por seres humanos. Isso é falso.

Porquê?

O que acontece é que estes sistemas são, no fundo, baseados em sistemas humanos porque a informação e a descoberta da forma como se podem fazer estas operações que parecem abstratas é, no fundo, resolvida através de uma massiva análise de produtos humanos. Para construir estas respostas, a máquina recorre a milhares de milhões de textos inseridos na internet que são analisados de uma forma exaustiva e que a determinado ponto constroem frases simpaticamente compostas e que fazem sentido. A ideia de que aquilo que ali está é puramente artificial é falsa. É sim artificial na descoberta dos sistemas, mas a informação fundamental veio de seres humanos."

in DN

Farto de utilizar apps americanas e chinesas?

Arquivo

Catálogo Biblioled

PressReader

Como usar

Catálogo BLX

Catálogo Geral das Bibliotecas Municipais do Porto

Catálogo de Bibliotecas do Município de Oeiras

No Thrones. No Crowns. No Kings.

Join the Resistance: Subscribe to The Borowitz Report Today.