02.12.25

Entretanto, o juiz levantara-se para receber o seu antigo professor.
- Que prazer revê-lo passados tantos anos!
- Tantos mesmo. E pesam-me - respondeu o professor.
- Não diga isso. Não mudou nada.
- Mas você, sim - disse o professor, com a sua habitual franqueza.
- Este maldito trabalho... Mas porque me trata por você?
- Como dantes - disse o professor.
- Mas agora...
- Não.
- Mas lembra-se de mim?
- Claro que me lembro.
- Posso perguntar-lhe uma coisa?... Depois farei outras perguntas, de natureza diferente... Nas composições de italiano, o professor dava-me sempre um dois, porque eu copiava. Mas uma vez deu-me um três: porquê?
- Porque copiou de um autor mais inteligente.
O juiz desatou a rir.
- Sempre fui mau em Italiano. Mas, como vê, não foi um grande problema. Cheguei até aqui: procurador da República...
- Italiano não tem que ver com o italiano, tem que ver com a capacidade de pensar - disse o professor. - Com menos italiano, talvez tivesse chegado ainda mais longe.
A piada foi dura. O juiz empalideceu. E deu início a um duro interrogatório.
excerto de Uma história simples, de Leonardo Sciascia (Editorial Presença)








